Na cobertura da 32° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

MOSTRA SP | Vicky Cristina Barcelona


Woody Allen, em pleno processo produtivo, chega ao seu quarto filme feito fora dos EUA, depois da 'trilogia' realizada na Inglaterra (Ponto Final, O Grande Furo e O Sonho de Cassandra). Dessa vez, ele filma na Espanha, que está no título do filme (Barcelona). Os outros dois nomes Vicky e Cristina são duas garotas norte-americanas lindas, em férias européias. Cristina é a deliciosa nova musa loira de Allen, Scarlett Johansson, e Vicky é a pouco conhecida Rebecca Hall, típico caso de mais uma atriz descoberta por Allen para o grande público. Quer dizer, nem tão grande assim. Cada vez mais, o cinema de Allen, mesmo popular, parece restrito a um pequeno número de espectadores fiéis e será sempre rotulado como 'cinema de arte', por mais populares, digestivas e até esquecíveis que sejam as novas comédias e dramas desse nova-iorquino. No caso de Vicky Cristina Barcelona, vale notar que Allen ataca com erotismocaliente, no já tão comentado beijo na boca entre Scarlett Johansson e Penelope Cruz.

Cineasta camaleônico que sempre foi (lembra da sua fase Bergman?), é possível perceber aqui a deliciosa influência do francês Eric Rohmer, no ritmo natural em que as coisas acontecem, com a relação tempo e espaço correndo solta na tela, num roteiro leve como uma pluma e, claro, algo de Pedro Almodovar. A incomodar apenas a utilização de um narrador externo (voz de Christopher Evan Welch) que comenta algumas passagens com o tipo de observações que o espectador já percebeu, numa redundância narrativa em que parece que Allen não acredita na inteligência da platéia. Bem, ao certo ele não acredita na inteligência do espectador médio ianque, e uma das melhores piadas do filme acontece quando entram em cena Javier Bardem e Penelope Cruz. Ao conversarem com Scarlett Johansson, Bardem sempre pede a Penelope: 'Speak in english!' Hilário. A abordagem da sexualidade é bem européia, incluindo transas a três sem culpa, ou pelo menos com tanta culpa quanto adultérios, já banais am filmes de Allen.

Woody Allen adapta-se perfeitamente às cores quentes espanholas, nem precisa dizer que o filme é lindo de ver. Não é um Allen essencial, é apenas mais um exercício de cinema desse senhor que transparece um enorme prazer em filmar e, velhinho safado, dessa vez ele botou pra quebrar na sexualidade, explorando saudavelmente a beleza e carisma do trio romântico central.

Cotação: Bom
Fernando Vasconcelos

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

MOSTRA SP | Cinzas do Passado Redux


Cinzas do Passado Redux é uma nova versão com 7 minutos a menos do épico que Wong Kar Wai realizou em 1994, pouco antes da cair nas graças dos críticos e cinéfilos com o maravilhoso Amores Expressos, do mesmo ano. Estrelado por seus colaboradores freqüentes Tony Leung e Maggie Cheung (o casal de Amor à Flor da Pele), o filme centra sua história em Ouyang Feng (Leslie Cheung), que, abandonado pela mulher que ama, vaga pelo deserto procurando espadachins talentosos para realizar assassinatos contratados. Com ajuda de clientes, amigos e futuros inimigos, ele acaba tomando consciência de sua solidão.

Na verdade, esse resumo é bastante básico, já que há uma série de personagens e narrativas entrelaçadas. É complicado acompanhar todas, chegou a um ponto em que eu simplesmente desisti de seguir as histórias e resolvi me concentrar na experiência visual e emocional que o filme proporciona. É aí que o filme ganha. São tomadas belíssimas e estilizadas, como já se espera de um filme de Kar Wai, transparecendo o amor, a solidão e a memória de seus personagens. Embora a trilha sonora seja um tanto piegas (ou brega mesmo) e os textos explicativos soem intrometidos, Cinzas do Passado Redux é um belo épico de artes marciais no melhor estilo Herói e O Tigre e O Dragão. Mas nesse caso, a luta é interior.

Cotação: Bom
Filipe Marcena

Terça-feira, Novembro 04, 2008

MOSTRA SP | Set


O universo da direção de arte no cinema, na publicidade e na TV é o tema que a diretora mexicana Adriana Camacho aborda em seu documentário Set. E é basicamente tudo o que eu posso falar sobre o filme, já que ele nunca faz mais do que isso: mostrar superficialmente como funciona a direção de arte em cinema e publicidade. Não há nada que você já não saiba ou imagine como seja, é redundância atrás de redundância, nada de novo a mostrar.

Set é cheio de clipes de cenários sendo montados e desmontados em velocidade acelerada e ao som de uma sonolenta e pouco criativa trilha sonora, além das manjadas entrevistas de sempre (salvo a de Eugenio Caballero, diretor de arte de O Labirinto do Fauno, em participação interessante, mostrando álbuns com farto material de pré-produção do filme). Mas, no geral, qualquer making of de DVD consegue ser mais interessante do que é mostrado em Set. O filme parece interminável mesmo durando pouco mais que uma hora, e é incrível que a diretora não tenha percebido como é tedioso assistir 500 balões murchando no meio de um cenário de comercial destruído. Com um tema fascinante, Set é incrivelmente entediante.

Cotação: Fraco
Filipe Marcena

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

MOSTRA SP | Filmes Premiados


Nessa quinta chegou ao fim a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2008 com uma noite especial: sessão única de Che com presença dos atores Benicio Del Toro e Rodrigo Santoro, uma cerimônia cheia de prêmios inesperados e show da "cantriz" portuguesa Maria de Medeiros. Entre os vencedores tivemos a oportunidade de assistir o pernambucano KFZ-1348, já comentado no blog. A vitória do prêmio especial do júri é um grande empurrão na carreira de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso e na do próprio filme, que já dava sinais de que ganharia algum prêmio graças a boa recepção do público e do apoio de Wim Wenders. Kinemail dá os parabéns aos diretores e ao produtor João Vieira Jr. :)

O outro vencedor que conferimos foi o alemão O Estranho em Mim (FOTO), de Emily Atef, nas categorias melhor filme e melhor atriz para Suzanne Wolff segundo o júri internacional. Nem eu, nem Fernando e nem Carol Ferreira gostamos do longa sobre uma mulher tentando superar uma depressão pós-parto e é frustrante vê-lo saindo duplamente premiado. Publicaremos crítica em breve aqui.

Segue a lista dos vencedores:

Prêmio da crítica
Aquele Meu Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes

Prêmio da Juventude
Verônica de Maurício Farias

Prêmios do Público
Melhor Longa Estrangeiro de Ficção
Jodhaa Akbar de Ashutosh Gowariker
Melhor Documentário Estrangeiro
Youssou N'dour: I Bring What I Love de Elizabeth Chai Vasarhelyi
Melhor Documentário de Longa-Metragem Brasileiro
Loki - Arnaldo Baptista de Paulo Henrique Fontenelle
Melhor Longa Brasileiro de Ficção
Apenas O Fim de Matheus Souza

Prêmios de Finalização
Longa-Metragem
Apenas O Fim de Matheus Souza
Curta-Metragem
Monkey Joy de Amir Admoni
Média-Metragem Brasileiro
Bode Rei, Cabra Rainha de Helena Tassara

Prêmios do Júri Oficial
Menção Honrosa
Vidas no Lixo de Alexandre Stockler
Melhor Curta-Metragem Internacional
Death Valley Superstar de Michael Yaroshevsky
Melhor curta-metragem Brasileiro
Monkey Joy de Amir Admoni
Melhor Média-metragem Brasileiro
Bode Rei, Cabra Rainha de Helena Tassara

Prêmios do Júri Oficial de Documentários
Menção Especial
Conhecendo Andrei Tarkovsky de Dimitry Trakovsky
Prêmio Especial do Júri
KFZ-1348 de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso
Melhor Documentário
Crianças da Pira de Rajesh S. Jala

Prêmios do Júri Internacional
Melhor Filme
O Estranho em Mim de Emily Atef
Melhor atriz
Susanne Wolff (O Estranho em Mim)

Kinemail continua postando críticas sobre os filmes vistos na Mostra, comentem!
Por Filipe Marcena

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

MOSTRA SP | Deixa Ela Entrar


Adaptação do livro homônimo de John Ajvide Lindqvist, Deixa Ela Entrar é uma pequena surpresa vinda das frias terras suecas. O filme de Tomas Alfredson já ganhou 13 prêmios ao redor do mundo e vem conquistando vários fãs ardorosos. Em sua história simples, Oskar, um garoto outsider de 12 anos, acaba de conhecer sua nova e estranha vizinha Eli. Com o tempo, acabam se apaixonando. Nada demais caso a garota não guardasse um segredo macabro.

Deixa Ela Entrar tem feito todo esse barulho por tratar-se de um filme de vampiros. E a natureza sombria do tema é perfeitamente mesclada com o romance e com a angústia pré-adolescente do protagonista. Tem para todos os gostos: a mitologia vampírica é respeitada, há sustos e gore, uma delicada história de amadurecimento e o romance mais meigo e doce (com leve sabor de sangue) que vi em muito tempo. Alfredson filma muito bem as gélidas locações da Suécia, assim como dirige com maestria seu elenco, especialmente o infanto-juvenil.

A boa recepção do público da Mostra já garante um lançamento nas telonas brasileiras, provavelmente para o ano que vem. Infelizmente, Hollywood já engatou o remake também para o ano que vem, sob a batuta de Matt Reeves (Cloverfield). Não é preciso muito pra dizer que esse remake não vai lamber a sola das botas do original. Não espere pela nova versão e assista assim que puder Deixa Ela Entrar, um lindo filme sobre amor, juventude e vampiros.

Cotação: Ótimo
Filipe Marcena

Terça-feira, Outubro 28, 2008

MOSTRA SP | Meu Winnipeg


O canadense Guy Maddin já é figurinha carimbada na Mostra SP. Todo ano tem filmes dele, que nunca são comprados para o Brasil, experimentais demais para o circuito comercial mas perfeitos para exibição em festivais. Ano passado foi muito falado o Brand upon the Brain! em sessão evento multimídia com música e narração ao vivo por Marília Gabriela em sessão concorrida.

My Winnipeg é a nova travessura cinematográfica de Guy Maddin, que faz um cinema muito particular, quase sempre em preto e branco, evocando/mimetizando o cinema mudo, com um toque meio gay, como cenas de vestiário masculino ou rapazes de maiô anos 20 etc. quase tudo produzido atualmente, num cuidadoso trabalho de direção de arte e figurinos, tudo manipulado no próprio celulóide e na sala de montagem, um trabalho muito bacana.

Dessa vez, o fio narrativo é um homem deixando sua cidade de trem, dormindo e sonhando com memórias de sua família, sua infância e adolescência, num pseudo-documentário pessoal. O formato é de uma overdose de imagens e sons retrô, com narrativa em off dramática e contínua, que funciona bem nos vários curtas de Maddin, mas em formato de longa (80 minutos) fica um pouco cansativo. Ainda assim, é uma experiência curiosa. Vale conhecer o cinema de Maddin, que tem obviamente muitas referências ao cinema mudo, mas também algo de David Lynch e outros cineastas modernos que investem num cinema mais sensorial, orgânico. Na bizarra cena da FOTO acima, casais namoram num parque cheio de cabeças de cavalo, que afogaram-se tentando atravessar um rio no inverno. Você pode não gostar do filme como um todo, mas numa maratona decentenas de filmes, com certeza essa é uma imagem que fica na memória.

Cotação: bom
Fernando Vasconcelos

Obs. Abrindo a sessão, com presença do produtor de Guy Maddin na sala, vimos também um curta comentado de Isabella Rosellini, Pornô Verde, onde ela, vestida com bizarras roupas de mosca, aranha, minhoca etc. mostra didaticamente como transam esses pequenos animais. Na verdade um negócio meio blefe, já que não é um curta e sim uma compilação de spots de poucos minutos, concebidos para veicular no YouTube, em celulares etc, como bem explicou o produtor do filme, formatos onde as pessoas assistem muita pornografia. Uma boa idéia, mas, repito, lançado na Mostra como 'um curta de Isabella Rosellini', achei uma tremenda enganação eh, eh

MOSTRA SP | Horas de Verão


Começando cedo no sábado 25, depois de perder uma apresentação grátis de Sonny Rollins, pelo TIM Festival, no Parque Ibirapuera numa manhã ensolarada, por acordar tarde demais, Kinemail assiste o primeiro filmaço da maratona, Horas de Verão, do ainda pouco conhecido Olivier Assayas, francês de 43 anos, realizador de Irma Vep, Demonlover, Clean e um curta de Paris, Eu te Amo. Horas de Verão já está comprado para o Brasil. Filme acompanha as vidas de três irmãos (entre eles, Juliette Binoche), após a morte da mãe, no processo de venda da velha casa de campo onde nasceram e cresceram e das obras de arte colecionadas pela família, incluindo quadros de um tio, famoso pintor, muito valiosos. Filmando cada vez melhor, Assayas imprime um ritmo fascinante de montagem e movimentação contínua de câmeras e faz um painel humano tocante, sem nunca cair no melodrama fácil. Momento particularmente inspirado, perto do final, mostra os jovens da família, fazendo uma 'despedida' da casa já vazia e vendida, numa festa movida a hip hop, rock e namoros adolescentes. Filme bonito demais.

Cotação: Muito bom
Fernando Vasconcelos

Domingo, Outubro 26, 2008

MOSTRA SP | Rumo a Empire


Depois de uma conturbada quinta-feira, a sexta seria um dia para tirar o atraso da mostra e se recuperar. Com ingressos para A Erva do Rato esgotados, arrisquei-me nessa produção indie americana e entrei na sala sem saber de nada sobre o filme. Mas antes não tivesse entrado: Rumo a Empire é uma catástrofe que começa mal e termina ainda pior.

A trama acompanha Charlie, administrador de uma companhia de aviação que acaba se envolvendo com negócios ilícitos. Algo dá errado e ele precisa viajar para uma cidade chamada Empire, que fica na Califórnia, para resolver o problema. Recém-casado, ele decide levar sua esposa Katherine consigo, mas sem contá-la a verdadeira razão da viagem. No decorrer da história, Katherine vai descobrindo o homem com quem ela realmente casou.

Rumo a Empire tenta criar alguma tensão, mas o diretor/roteirista Michael Sibay é incompetente demais para a tarefa e os diálogos risíveis cuspidos pelo medíocre elenco torna a experiência mais irritante, sem falar na trilha épica equivocada. Mas o pior é que o filme realmente se leva a sério. Ao colocar uma estapafúrdia virada final, Sibay enfia uma estúpida e infatil mensagem político-social que me fez rir alto do grande clímax. E o que dizer de um filme que possui um personagem médico chamado Dr. Marciano?

O longa é tão cansativo e bobo que algumas pessoas abandonaram a sala durante a sessão. Eu, na minha inocência, fiquei até o fim na esperança de que o filme melhorasse. Era mais negócio ter acompanhado os sortudos que decidiram não assistir ao fim dessa bagaceira...

Cotação: Péssimo
Filipe Marcena

MOSTRA SP | A Erva do Rato


Sexta-feira, dia complicado para tirar entradas, consegui uma para a última sessão de A Erva do Rato, de Julio Bressane, em concorrida sessão esgotada, para o novo multiplex do luxuoso shopping Bourbon, novas salas no circuito da Mostra. A sala, com apenas 60 lugares e um confortável sofá como última fila, curiosamente teve sessão vazia, não mais que 20 espectadores, sinal de que a produção do filme deve ter distribuído convites que não foram utilizados.

Filme é baseado livremente em dois textos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto. Bem recebido no Festival de Veneza, o filme é uma experimento literário e pictórico, com referências como Edouard Manet, onde destaca-se o trabalho de fotografia e iluminação de Walter Carvalho, trabalhando em formato largo de tela (CinemaScope). De dificílima digestão para o público médio, o filme só terá carreira comercial graças aos atores principais, Selton Mello e Alessandra Negrini. No filme, os protagonistas sem nome Ele e Ela, conhecem-se num cemitério e iniciam um estranho relacionamento conjugal, marcado por elementos simbólicos repulsivos, como ratos e esqueletos, além do uso da própria imagem, em fotos eróticas que Ele realiza com Ela. Para iniciados na fase atual de Bressane, o filme é uma experiência válida, mas não tão interessante como Filme de Amor (2006), por exemplo.

Cotação: Regular
Fernando Vasconcelos

MOSTRA SP | KFZ-1348


Finalmente Kinemail começa a cobrir a Mostra SP nessa quinta 23. A idéia era assistir já uns 3 filmes no primeiro dia, mas só deu pra ver sessão de noite e o escolhido foi o documentário pernambucano KFZ-1348, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso (FOTO), em sua primeira exibição na Mostra, numa sessão cheia de amigos, incluindo os diretores, o produtor João Vieira Jr. e o montador Daniel Bandeira. O filme, que teve uma versão de pouco mais de 50 minutos exibido na TV (no SBT), foi exibido na Mostra na sua versão mais longa, 81 mintos, a preferida dos diretores. Em 1965, um fusca é vendido a um jovem engenheiro civil de São Paulo. Quarenta anos se passam e o carro vai parar num ferro-velho do Recife, com a placa KFZ-1348. Nessa trajetória de quatro décadas, o carro passou pelas mãos de outros sete proprietários. De um empresário paulista a uma cabeleireira do interior de Pernambuco. Para cada um deles, o fusca teve seu valor, sua importância, em diferentes momentos da história do Brasil.

Boa notícia: KFZ-1348 já está entre os finalistas para a premiação no encerramento da Mostra,
e Marcelo Pedroso me informou que o célebre diretor alemão Win Wenders, convidado da Mostra, mostrou interesse pelo filme, que tem chances de sair premiado. Embora em sua versão mais longa o filme tenha alguns problemas de ritmo, é um bom documentário, gênero que, aliás, vem produzindo os melhores filmes brasileiros recentes.

Cotação: bom
Fernando Vasconcelos

Publicidade