quarta-feira, outubro 31, 2007

Sublime retrato da adolescência


Terça 23 - PARANOID PARK EUA, 2007

O cineasta americano Gus Van Sant tem uma trajetória muito particular. Apareceu no começo dos anos 90 com os cultuados Drugstore Cowboy e My Own Private Idaho (aqui Garotos de Programa, com atuação memorável do tragicamente falecido River Phoenix). Aberta a porta para Hollywood, ele realizaria obras mais acessíveis como o razoável Gênio Indomável, o excelente To Die For - Um Sonho Sem Limites, com Nicole Kidman e Joaquin Phoenix, e o inexplicável remake do Psicose de Hitchcock. Pausa. Na virada do milênio é que Van Sant mostrou a que veio. Os filmes gêmeos Gerry (que ninguém viu) e Elefante (Palmade Ouro em Cannes 2004), seguidos de Last Days (no Brasil somente em DVD) e desse novo Paranoid Park, colocam Van Sant num patamar sem paralelo no cinema atual pela sensibilidade em olhar o adolescente do mundo contemporâneo.

A Mostra SP está chegando ao fim e, certamente, Paranoid Park foi um dos mais perfeitos e impressionantes filmes que vi na maratona. Van Sant melhora a cada filme e, se sua obra não se parece com nada do cinema comercial, este é também o mais acessível de seus filmes recentes. Baseado em livro, é sobre um garoto que mata acidentalmente um vigia noturno na área barra pesada do 'Parque Paranóia' do título, frequentado por skatistas e marginais. O jovem skatista Alex (Gabe Nevins, ótimo estreante) é seguido pela câmera durante todo o processo conflituoso que vive a partir do acidente, mostrado explicitamente numa cena que intencionalmente destoa não só do filme como de toda a filmografia de Van Sant (um homem agonizando, com o corpo partido ao meio, num trilho de trem). Há, claro, a investigação policial. Mas o filme está interessado em registrar o que se passa com o garoto, num incrível processo de intimidade com esse personagem. A relação distante com os pais, as sutis observações sobre masculinidade e sexualidade (sempre com o olhar gay de Van Sant, mas nunca tendencioso), o primeiro namoro, a dificuldade de relacionamento e adequação ao mundo à sua volta. Com o perfeito e muito pessoal uso da câmera e, em especial, o delicado design de som, que cria climas líricos, soturnos, de efeito sensorial só conseguido numa sala de cinema, temos uma pequena obra-prima de puro cinema, que sabe olhar seu personagem e não precisa de nenhum discurso falado, nem de conclusões convencionais. Uma obra em aberto para leituras infinitas. Gus Van Sant confirma-se como um dos maiores cineastas atuais. Com apenas 85 minutos de duração, Paranoid Park é literalmente um pequeno grande filme.
Cotação: ótimo

4 comentários:

Lucídio Leão disse...

Sabe dizer se esse vem pra Recife?

Fernando Vasconcelos disse...

ao certo. vi em digital, portanto aí em Reife, só na Fundaj. Torcer pra que passe logo agora na Expectativa 2008. Doido pra rever :)
NÃO BAIXE PELA INTERNET. O filme merece, precisa ser visto no cinema.

Elis disse...

Pois é queria ter comentado mais e tals, mas nem tem tanto como fazer isso, já que realmente não vi nenhum desses filmes, gosto de tirar minhas impressões... blá, blá, blá...

Quando chegar por aqui, qq um, darei um jeito de ver e tentarei ficar ligada, às vezes as cousas passam desapercebidas mesmo... acabo catando nas locadoras depois...

Fui ver Superbad, por sua "culpa"... hahaha...foi o filme que mais me fez rir em muito tempo e olhe que detestei "O Virgem de 40 anos" pelos mesmos motivos q há em Superbad, porém, como já esperava e sei que enfim é assim, deixei rolar, acabou sendo legal em certa parte...

Abs, e até a volta
Elis

Elis disse...

Olhe, coloquei seu endereço lá no meu blog como um dos meus "blogs amigos"... e tb o site do Kinemail em outra parte lá, para o povo q acessar (raras pessoas, vale salientar) consulte suas opiniões tb... podia? bem já fiz, mas se isso não 'dá Rock' pra vc pode dizer q eu tiro e td blz!

Beijos