domingo, outubro 21, 2007

Afinal, o que é cinema?



Sexta, 19 - IMPÉRIO DOS SONHOS Fra/Pol/EUA, 2006

Mais uma sessão lotada, 23h30 da noite, para entrar pela madrugada com o novo épico audiovisual de 3 horas de duração de David Lynch, Inland Empire, um dos filmes mais aguardados dessa Mostra, que a Europa Filmes teve a ousadia de comprar para o Brasil e será lançado ainda nesse novembro nos nossos cinemas (o filme foi ignorado pelo público americano e, até agora, é uma espécie de mimo de festival de cinema, sem muitas possibilidades de exibição comercial). Desde a obra-prima A Estrada Perdida, de 1996, Lynch vem entortando o conceito do que seja uma narrativa cinematográfica ou o sentido lógico dela. O anterior Mullholand Drive foi seu maior sucesso recente nessa temática. Não por acaso a tradução fácil aposta em 'sonho' (Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos são os títulos aqui, não inadequados mas definitivamente limitadores de significado). Se Lynch ainda flertava com as bases da narrativa de suspense, terror, para dar algum fio da meada para o espectador, dessa vez, acredite, ele ousou reinventar o próprio cinema. Ainda não sei se gostei (é impossível classificar esse filme no bobo sistema de 'estrelinhas'), mas durante as três horas alucinantes (ou irritantes, dependendo do espectador) de Império dos Sonhos a pergunta mais freqüente que você fará é: QUE PORRA É ISSO QUE EU ESTOU VENDO??? Intelectuais e críticos farão as costumeiras 'interpretações psicológicas' mas, minha opinião (e acredito totalmente que a intenção do diretor) esse não é um filme para ser entendido, explicado. Lynch propõe um mergulho radical numa experiência sensorial/audiovisual em que o filme é o que está na tela, durante aquelas três horas. Qualquer tentativa de verbalizar/explicar o filme é inútil, pobre.

À principio há a ilusão de que veremos um filme-gêmeo de Mullholand Drive. Temos uma atriz (Laura Dern, atriz-fetiche de Lynch, num papel escrito especialmente para ela, que se entrega de forma impressionante ao personagem), em vias de conseguir um papel principal num filme de Hollywood (vista com o mesmo cinismo e ironia de Mullholand Drive). Saberemos que o filme é um remake, mas de um filme 'maldito' que ficou inacabado com a morte dos protagonistas. Metalinguagem: vemos as filmagens, o diretor, o produtor, cenas do filme que se confundem com a vida real da atriz protagonista. Durante mais ou menos uns 40 minutos, parece que veremos mais do Lynch de sempre. Então, let's get freak, baby!: o personagem desdobra-se em várias linhas narrativas e temporais. Efeitos estrobocópicos, fantasmagóricos, começam a diluir a narrativa de forma visivelmente irreversível. Cenas perturbadoramente escuras, muito sangue, personagens bizarros, cruzam a tela caoticamente, numa sinfonia de imagens que, se se parecem com alguma coisa, isso seria um sonho/pesadelo. Lembre-se que estou falando de um filme de 3 horas de duração... Embarcar nessa viagem é um compromisso entre o espectador e o filme. Pelo jeito, a platéia dessa sesssão deu feedback: risadas irônicas, nervosas e até mesmo espontâneas acompanharam o filme até os momentos finais, que fecham a narrativa até com alguma 'lógica'. Mas esqueça a lógica do cinema convencional. Estou falando da lógica interna de uma obra de, mais que um cineasta, um artista inquieto, numa fase extremamente pessoal de seu trabalho, sem nenhuma concessão para o mercado. É embarcar ou pular fora. Como falei, nem sei ainda se gostei. Aliás, no caso de Império dos Sonhos, gostar ou não gostar parece um negócio ultrapassado. David Lynch anda querendo mexer com os limites do que seja cinema no mundo contemporâneo. Se está conseguindo, eu não sei, mas tenta de forma brilhante. Alguém já falou que a diferença entre o cinema e a vida é que, no cinema, a vida faz sentido. Acho que essa é a 'senha' para degustar Império dos Sonhos, filme obrigatório de 2007. Observação: Lynch realizou o filme em digital e declarou que não usará mais celulóide. Império dos Sonhos tem imagens digitalmente 'feias', quase trash, 'amadoras' mas, claro, como uma escolha estética intencional do diretor. Só vendo você perceberá o que quero dizer.

Cotação: inclassificável. Em 'estrelinhas'? Me diga você...

2 comentários:

Edgar disse...

tenho preconceito com dl. mas respeito ousadia e experimentação. fiquei curioso.

Fernando Vasconcelos disse...

yeah, respect the man :)