segunda-feira, setembro 25, 2006

Pedro Almodóvar e Ricardo Elias

VOLVER

Pedro Almodóvar é um cineasta incrível, que não cessa de nos surpreender a cada novo filme. Seu último, Volver, é uma obra-prima, uma louvação ao feminino e ao universo das mulheres, mães, avós, sobrinhas, tias, amigas, calejadas por seus homens e pela passagem do tempo. Em Volver, as mulheres são o foco, centro e alma, pivôs de um universo familiar desprovido de figuras masculinas – o único que aparece em cena de fato é logo no início descartado por uma situação que ligará inevitavelmente mãe e filha. Se a estratégia de tirar os homens da jogada parece por vezes forçada, a sensibilidade com que Almodóvar retrata suas mulheres é suficiente para manter verossímil e forte a trama que se desenrola ao longo do filme.

A história começa em um cemitério, povoado por mulheres que limpam as covas dos seus maridos. A cidade é em La Mancha, região de origem do cineasta. Somos rapidamente apresentados às personagens que acompanharemos: a reboculosa Raimunda (Penélope Cruz), sua irmã Sole (Lola Dueñas) e sua filha Paula (Yohana Cobo), que ajeitam o túmulo dos pais, mortos num incêndio. Visitam a amiga Augustina (Blanca Portillo), que fuma maconha e lembra da mãe desaparecida (“a única hippie do vilarejo”, lembra com carinho), e a tia Paula (Chus Lampreave), que diz viver ajudada pela falecida mãe de ambas, Irene. A partir desse núcleo familiar, acompanhamos uma tragédia que marcará duas das personagens e dará início à trama, marcada pela volta de Irene (Carmen Maura, excelente), cujo “fantasma” aparece para ajudar Raimunda, com quem nunca se deu bem, utilizando a tímida Sole como ponte de reaproximação.

Assim, Almodóvar faz um exercício de melodrama, se apropriando dos códigos do gênero de forma muito particular, para, ao mesmo tempo subverter e reafirmar o cânone. Para isso, insere na história uma situação sobrenatural, (que vai revelar muito mais que isso ao final do filme), trabalhando sem dificuldade o cômico e o trágico, com uma naturalidade impressionante, num exercício primoroso de cinema.

Por fim, impossível não falar das atrizes. Cruz está impecável como uma mulher do povo, impulsiva, forte e sexy, numa interpretação digna de Sophia Lorren (como foi classificado pelo próprio cineasta), diva total. O melhor papel de sua carreira. Carmen Maura, voltando a trabalhar com Almodóvar, é engraçada e expressiva, uma atriz no auge da sua forma. Volver é trabalho de mestre, que nos fará pensar ainda muito nos próximos anos e quando poderemos ver o trabalho recente de Almodóvar em conjunto – para mim, o maior cineasta em atuação no cinema hoje.

OS 12 TRABALHOS

Três anos depois do seu longa de estréia, De Passagem, Ricardo Elias volta à periferia de São Paulo, novamente para observar as andanças de um jovem de classe baixa pelas ruas da metrópole. Realizado com muita eficiência, o filme acompanha a jornada de Heracles, (o ótimo Sidney Santiago), um jovem negro, recém saído da Febem, que tenta conseguir um emprego de motoboy, a partir da indicação do primo Jonas (Flavio Bauraqui). Para conseguir o trabalho, Heracles tem que completar 12 trabalhos, numa releitura urbana do mito de Hércules. Pelo seu caminho enfrenta funcionários públicos, recepcionistas, seguranças, outros motoboys e até um gato.

Os 12 Trabalhos apóia-se na força do seu protagonista e na excelente atuação de Santiago, que se destaca dos demais colegas de elenco assim como o garoto que interpreta se sobressai dos outros motoboys. Heracles é sensível, gosta de desenhar e de fantasiar sobre as pessoas com que cruza, como um oráculo. Aparentemente frágil, calado e sempre de semblante sério, o jovem enfrenta a injustiça, a violência, a intolerância e as tentações para completar sua tarefa. Tenta enxergar poesia nas coisas banais do dia em São Paulo, mas é atropelado pela realidade da metrópole. Recheando o filme de referências não só à mitologia grega, mas também ao cinema (Taxi Driver e Os Incompreendidos são as mais explicitas e dotadas de relações com o conteúdo da narrativa), Elias realiza um filme bastante interessante e preciso, de cinematografia simples e bela. Sua câmera está sempre próxima ao protagonista – toda a ação acontece sob seu ponto de vista e o acompanha ao longo do dia. Vamos ficar de olho na carreira do filme e do cineasta.

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