terça-feira, outubro 26, 2010

O mundo de Sofia


O Leão de Ouro conquistado por Sofia Coppola com UM LUGAR QUALQUER já provocou reações preconceituosas de que ela foi premiada pelo sobrenome ou pela influência de Quentin Tarantino no júri do festival. Não é justo. A jovem cineasta americana, 39 anos, tem um trabalho sólido em seus três longas anteriores (Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros, Maria Antonieta) e firma-se como uma das cineastas mais interessantes do cinema contemporâneo. Com um cinema muito pessoal, Sofia retoma a vida de celebridades em hotéis, clara referência à sua infância e adolescência ao lado do pai Francis Ford Coppola. No filme, o ator Johnny Marco (Depp?) passa os dias chapado ou entediado no famoso hotel Chateau Marmont em Los Angeles, entre loiras, bebida, antidepressivos e coletivas de imprensa para lançamento de seus 'filmes de multiplex'. A rotina muda um pouco quando ele é obrigado a ficar uma temporada com sua filha de um casamento falido. Com poucos diálogos, câmera discreta que quase não se movimenta (com exceção de zooms belíssimos), Sofia faz um típico pequeno grande filme, dá uma oportunidade única para um ator até agora apenas mais um rosto bonitinho de Hollywood (Stephen Dorff) e faz Elle Fanning (11 anos, irmã de Dakota) brilhar, com grandes chances de sair indicada ao Oscar de coadjuvante ano que vem. Apesar de não escapar de alguns clichês indies (tanto Dorff quanto Fannig têm seus momentos intimistas previsíveis, a 'cena de choro' para o telão do Oscar), Sofia realiza o filme menos comercial e mais pessoal de sua carreira e, sem a pretensão, realiza uma espécie de A Doce Vida comtemporâneo. Uma das melhores sessões dessa Mostra SP.

UM LUGAR QUALQUER
de Sofia Coppola EUA 2010
Visto em 25/10 no Cine Unibanco Pompeia 1
Por Fernando Vasconcelos
Cotação: MUITO BOM

Kiarostami carimbado para exportação


O diretor iraniano Abbas Kiarostami já faz parte da história da Mostra SP, com quase todos seus ótimos filmes da época que o cinema iraniano virou moda entre cinéfilos brasileiros (Onde Fica a Casa do Meu AMigo?, Close Up, Através das Oliveiras, Gosto da Cereja, O Vento nos Levará) exibidos comercialmente aqui. Seu mais novo filme é uma coprodução França/Itália/Irã com status de 'filme de arte para consumidores letrados', a começar pela presença da atriz Julliete Binoche, que já garante exibição no circuito comercial alternativo. Com estrutura um tanto artificial, CÓPIA FIEL mostra o encontro entre um escritor inglês e uma francesa dona de uma galeria de arte. Em sofisticados e longos planos-sequência, os dois discutem sobre arte original e cópias, tema do livro do escritor, enquanto revela-se que eles representam um casal separado em crise. Me veio à memória o clássico de Rossellini Viagem à Itália e o recente Antes do Pôr-do-Sol de Richard Linklater. O filme rendeu o prêmio de melhor atriz em Cannes esse ano, no que me parece mera formalidade em carimbar a produção com um selo de qualidade. É um filme bem realizado, com boas atuações, mas em última análise, não me emocionou em nenhum momento.

CÓPIA FIEL
de Abbas Kiarostami França/Irã 2010
Visto em 25/10 no Cine Livraria Cultura 2
Por Fernando Vasconcelos
Cotação: REGULAR

Neve bem filmada


NORTE é um filme norueguês que parece não se esforçar para chegar muito longe, diferente de sua personagem título. Ambientada no gelado interior do país, a história segue Jomar, um rapaz que sofre de síndrome do pânico, mas é obrigado a lutar contra a doença ao descobrir que tem um filho morando em outra cidade. Ele empreende uma pequena jornada em seu trenó motorizado através do longo deserto gelado, e como em todo road movie, topa com algumas figuras estranhas. Os coadjuvante proporcionam os melhores momentos do longa, que demonstra aí sua maior falha. Tendo apenas 78 minutos de duração, a narrativa não oferece tempo para o público se aproximar da condição do protagonista e criar alguma empatia com ele. Além disso, os encontros acabam sendo acelerados demais, e boas histórias ficam desperdiçadas. Mesmo assim, NORTE é bem realizado, e tem uma das direções de fotografia mais bonitas que já pude ver em filmes que tem a neve como cenário.

NORTE
de Rune Denstad Langlo Noruega 2009
Visto em 25/10 on-line
Por Felipe Silva
Cotação: BOM

Metrópolis ao vivo

Abertura da histórica sessão de METRÓPOLIS na 34ª Mostra SP no Ibirapuera.

The Complete METROPOLIS

Obra-prima ao ar livre com orquestra sinfônica ao vivo

Mais uma sessão especial, essa talvez a mais importante dessa Mostra. Recuperada num trabalho árduo de restauração, a nova versão de METROPOLIS está agora com 2 horas e 25 minutos de duração, bem próxima do original que Fritz Lang realizou em 1927. Os minutos perdidos e inéditos foram encontrados em negativos 16 mm em Buenos Aires. Obra-prima do cinema mudo de ficção científica, METROPOLIS influenciou toda a estética do gênero, sendo até o robô C-3PO de Guerra nas Estrelas uma óbvia referência ao robô Maria do filme. Ainda, a influência estética pode ser vista na cidade futurista de Blade Runner. A sessão única de METROPOLIS aconteceu no Parque do Ibirapuera ao ar livre na noite de domingo e tornou-se mais especial e inesquecível pelo acompanhamento musical impecável da Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo, executando a partitura original escrita para acompanhar o filme. Essa sessão de cinema eu nunca mais vou esquecer na vida.

METROPOLIS
de Fritz Lang Alemanha 1927
Visto dia 24/10 no Parque do Ibirapuera
Por Fernando Vasconcelos

Simpática neurose neo-liberal


Em SENTIMENTO DE CULPA, Catherine Keener interpreta Kate, uma rica e bela novaiorquina de meia idade, proprietária de um antiquário com o marido (Oliver Platt). Dentre suas várias preocupações, estão sua filha adolescente em crise, o desgaste de seu relacionamento com o marido, sua vizinha idosa Andra (a ótima Ann Morgan Guilbert) uma senhora mal humorada que mora com duas netas (Rebecca Hall e Amanda Peet) e cujo o apartamento será comprado por Kate, e, é claro, o sentimento de culpa pela pobreza e miséria da humanidade. Num cinema que usa e abusa de um texto veloz como o de um sitcom, SENTIMENTO DE CULPA (Please Give no original) é mais um trabalho sobre a influência do dinheiro e do poder nas relações humanas vindo da diretora e roteirista Nicole Holofcener (Amigas com Dinheiro) e sua quarta parceria com Keener. Cru e direto, o filme traz um texto afiado e pé-no-chão, uma raridade no cinema indie afetado americano recente. Em outros filmes, cenas como a do voluntariado e a da limpeza de pele na filha de Kate tedem a se apoiar no melodrama, e não na sobriedade como em SENTIMENTO DE CULPA. Os atores são um melhor que o outro, Peet rouba alguma cenas com sua performance ácida e Keener mostra porque é uma das melhores atrizes americanas na atualizade, além de ser linda no alto de seus mais de 50 anos. Prejudicado apenas por uma trilha sonora um tanto apelativa, o filme é uma agradável surpresa e uma divertida reflexão sobre a suposta cruz que temos que carregar.

SENTIMENTO DE CULPA
de Nicole Holofcener EUA 2010
Visto dia 23/10 no Unibanco Arteplex 3
Por Filipe Marcena
Cotação: BOM

Centenário de Akira Kurosawa

Teruyo Nogami apresenta a sessão de Rashomon

Dentro de várias sessões especiais dentro da 34ª Mostra SP está a comemoração dos 100 anos de Akira Kurosawa (1910-1998), com uma imperdível exposição de 80 gravuras originais do mestre japonês, com estudos e storyboards de seus filmes, no Instituto Tomie Ohtake, com entrada franca, e a bela sessão que vimos de RASHOMON (1950), um dos grandes clássicos de Kurosawa, com um roteiro pioneiro em contar várias versões da mesma história de um crime e um estupro, narradas em flashback por testemunhas do julgamento, incluindo depoimento do próprio morto. Apresentada pela colaboradora de Kurosawa por 50 anos, Teruyo Nogami, a sessão lotada na Sala Cinemateca foi emocionante, além de ser uma oportunidade raríssima de ver numa tela de cinema uma cópia em 35 mm perfeitamente restaurada.

RASHOMON
de Akira Kurosawa Japão 1950
Visto dia 23/10 na Sala Cinemateca
Por Fernando Vasconcelos

segunda-feira, outubro 25, 2010

Suicídio filmado na Índia


Na cidade de Peepli, na Índia, Natha vive em péssimas condições com seu irmão Budhia, mulher e sogra. Quando a fazenda da família é ameaça ser tomada, Budhia acaba convencendo Natha a cometer suicídio, por causa de um programa indiano onde a indenização chega a 100 mil rúpias para a família do fazendeiro falecido. É uma prática comum, mas quando o tímido Natha anuncia seu suicídio, a história toma proporções impensadas: a imprensa e mídia descobrem o caso, o governo interfere, os poderosos locais ficam escandalizados e Peepli é invadida por câmeras e jornalistas interesseiros. Nada que já não tenha sido visto em muitas comédias sobre manipulações midiáticas, PEEPLI AO VIVO segue um tanto previsível, mas sempre com uma festa para os olhos em cores e sons como esperado dos filmes de Bollywood. Vale notar que este filme indiano não é um musical. Levado em tom leve de comédia, há um tom de desencanto ao final nada feliz, mas ainda descartável em sua pretensão de denúncia social, no destino que o filme dá ao protagonista, que remete bastante às condições de vida do povo brasileiro subempregado nas metrópoles. Vale pelas canções da trilha sonora e pelo carisma dos atores.

PEEPLI AO VIVO
de Anusha Rizvi Índia 2010
Visto dia 23/10 no Cine Livraria Cultura 2
por Filipe Marcena
Cotação: REGULAR

O estranho cinema de Manoel


Uau, uau! O que dizer de um cineasta com mais de 100 anos de idade, filmando uma média de um filme por ano e com uma vitalidade mais contagiante que muitos cineastas jovens contemporâneos? Bravo, Manoel! Depois do belíssimo Singularidades de uma Rapariga Loira, visto na Mostra ano passado e ainda inédito comercialmente no Brasil, temos outra pequena pérola de um cinema que parece suspenso em outro nível de realidade, operando primordialmente com a 'mágica' de fazer cinema, com direito a efeitos especiais poéticos, em referência aos efeitos especiais do cinema mudo do começo do século passado, aliás, vividos por Manoel, que era criança então. O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA é um filme sobre a imagem e sobre a vida. Não é pouco. temos um jovem fotógrafo convidado no meio da madrugada para fazer uma foto da bela Angélica. Na hora que faz a foto no velório, através do visor da câmera, Angélica sorri para ele. Contar mais tira o encanto do filme. A obsessão do rapaz pela imagem de Angélica levará a belos momentos fantásticos, sobre a alma, o corpo, a beleza humana. Filme para degustar, admirar e não discutir. Arte plena. Para completar a beleza da sessão, o curta PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA, VISÃO POÉTICA, uma reflexão analisando detalhes e significados do quadro que dá título ao curta, obra do século 16 do pintor Nuno Gonçalves, uma das mais célebres e misteriosas pinturas da história da arte de Portugal.

O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA
de Manoel de Oliveira Portugal 2010
Visto dia 23/10 no Cine Livraria Cultura 2
por Fernando Vasconcelos
Cotação: MUITO BOM

Paranormalidade repetitiva

ATIVIDADE PARANORMAL 2 não está na programação da Mostra SP, mas em cartaz em todo o Brasil a partir dessa sexta. Empolgados pelas primeiras boas críticas da imprensa, não resistimos em checar logo o filme aqui num multiplex, já que o primeiro Atividade Paranormal consideramos um dos mais apavorantes filmes de terror recentes. Mas que decepção. Sem ser exatamente um filme ruim, ATIVIDADE PARANORMAL 2 é apenas mais do mesmo, agora sem o aval da novidade, e surpreende por não dar mais medo, pelo menos não como o primeiro filme dava. Agora somos apresentados a outra casa com a presença do Mal, a residência da irmã de Katie, mostrada antes da trama do filme anterior. Dessa vez, temos uma família inteira, com bebê, empregada, adolescentes e um cachorro mas, infelizmente, tirando alguns sustos, tudo transcorre numa previsibilidade que chega a ser entediante, diante dos curtos 88 minutos que dura o filme.

ATIVIDADE PARANORMAL 2
de Tod Williams EUA 2010
Visto dia 22/10 no multiplex PlayArte Bristol 6
por Fernando Vasconcelos
Cotação: REGULAR

Amalric expõe decadência com sensibidade


O conhecido ator francês Mathieu Amalric não é nenhum iniciante em se tratando de direção cinematográfica. TURNÊ é seu terceiro filme atrás das câmeras, mas foi o primeiro a ser reconhecido por um público maior, principalmente após ganhar o prêmio de melhor direção em Cannes 2010. O que, por sinal, não foi um prêmio bairrista. Amalric acertou em cheio na conversão de sua experiência como ator para a mise-en-scene, especialmente no que concerne ao elenco. Ele apresenta uma força impressionante na construção de imagens de estética realista, filmando tomadas que se equilibram entre o documental e o pré-concebido com facilidade invejável. O filme é sobre uma trupe de veteranas 'garotas' (leia-se artistas em decadência) americanas que são guiadas por Joachim Zand (Amalric, sempre excelente ator), produtor neurótico e malandro, durante um tour pela França com um espetáculo neoburlesco e, muitas vezes, grotesco. Enquanto todos desejam realizar a apresentação final em Paris num palco digno, o grupo segue a vida no submundo atando e desatando nós de relacionamentos e tentando pôr um pouco de controle no caos que a vida está no momento. TURNÊ não é exatamente um filme de entretenimento, tampouco uma comédia irreverente como o que geralmente é realizado com personagens desse tipo, apesar de conter elementos destes. O olhar de Amalric aponta para o interior desses seres humanos, seus figurinos contrastam com a melancolia pungente que brota de algumas cenas mais invasivas e delicadas. Os corpos maltratados, mas não menos venerados das atrizes, são explorados sem receios, mas com um respeito de quem pediu licença para observar. Falando nas moças, destaca-se a plantinada Mimi Le Meaux, que ganha destaque ao longo da narrativa, na sua relação com Zand. Mesmo seguindo numa nota melancólica, TURNÊ ganha fácil o espectador graças a fidelidade com que aborda seus carismáticos personagens e impressiona pelo talento de Amalric na composição de personagens, planos e conceitos do seu filme.

TURNÊ
de Mathieu Amalric França 2010
Visto dia 22/10 na Reserva Cultural
por Filipe Marcena
Cotação: MUITO BOM

domingo, outubro 24, 2010

Um garoto que ouvia The Cure


Os filmes que tratam dos ritos da adolescência quase sempre se prendem a dois extremos: ou são comédias “high-school” sem profundidade, ou falam de jovens perdidos num ambiente social hostil. É muito agradável encontrar algum trabalho que saia desses nichos, mesmo que não sejam grandes filmes. É o caso do norueguês O HOMEM QUE AMAVA YNGVE, uma história muito simples, que ostenta o título de maior bilheteria no seu país em 2008. O filme se passa em 1989 durante a queda do muro de Berlim. O jovem Jarle Klepp mora com a mãe na cidade de Stavanger, Noruega, e não está nem um pouco interessado na política mundial. Ele monta uma banda punk com os amigos, consegue namorar a garota que desejava, e passa os dias ouvindo The Cure, Jesus and Mary Chain e coisas que não eram tão famosas na sua cidade. Um dia porém, um garoto chamado Yngve começa a estudar na mesma sala que ele, e suas manias estranhas e jeito sensível logo conquistam a atenção de Jarle. É o suficiente para que ele se apaixone, e obviamente não saiba lidar com isso, criando vários problemas com seus amigos. O roteiro se perde um pouco depois da metade do filme, e as relações de Jarle, especialmente com a família, são deixadas de lado. Apesar disso, o filme tem uma trilha sonora sensacional com clássicos dos anos 80, e tem um sopro de originalidade.

O HOMEM QUE AMAVA YNGVE
Noruega 2008 1h39min
Visto em 22/10 on-line
Por Felipe Silva
Cotação: BOM

As coisas simples da vida


Já havia criado uma expectativa pelo drama coreano POESIA, mas ainda assim o filme surpreende. Em resumo, o filme é sobre uma senhora solitária que, apresentando os primeiros sinais do Mal de Alzheimer, procura ocupar-se entrando num curso de poesia. O professor depara-se com a dificuldade de seus alunos em expressar-se e ensina com simplicidade como conseguir por no papel a beleza de um momento, de uma emoção. Há a armadilha do cinema literário aqui, mas o diretor Lee Chang-dong logo mostra que sabe fazer cinema, da melhor qualidade. A simplicidade da trama começa a revelar camadas. Essa senhora é avó e vive com um neto, talvez envolvido com amigos no estupro de uma garota que suicidou-se. Ela também trabalha como empregada, numa casa onde trata de um senhor inválido e moribundo. Os pais dos garotos envolvidos no caso do estupro da garota a convidam para tentar abafar o caso com uma compensação financeira para a mãe da garota. Enquanto isso, essa senhora humilde, com uma doença que irá afetar sua memória, frequenta as aulas de poesia e exercita expressar-se com palavras nos momentos que contempla as coisas belas (e as tristes também) à sua volta. Com longa duração e desenvolvido sem pressa, o filme avança para um final de uma beleza ímpar. Sem pieguice e com uma grandeza rara em unir imagem e poesia, com simplicidade e sabedoria. Filmão. A destacar ainda a atriz Yoon Hee-jeong, veterana e famosa na Coreia do Sul, mas que há 15 anos não filmava. Para quem está em SP, a última das quatro exibições de POESIA na Mostra acontece nessa segunda 25. Agende-se. O lançamento comercial no Brasil está previsto para abril de 2011.

POESIA
Coreia do Sul 2010 2h20min
Visto em 22/10 no Reserva Cultural
Por Fernando Vasconcelos
Cotação: MUITO BOM

Sexta-feira 22 de outubro - O Começo

Chegamos em SP na sexta pela manhã e, depois de tirar credencial, comprar chip de celular local, descarregar malas e subir e descer de metrô (e almoçar, claro), só deu pra 'começar' a maratona da Mostra com uma sessão às 17h, muito bem escolhida, por sinal, para o coreano POESIA, prêmio de melhor roteiro em Cannes 2010. Na ida de metrô, um insight cinéfilo registrado:

Metrô SP, 2046, Wong Kar-wai, Mostra SP

sábado, outubro 16, 2010

Mostra SP 2010


> Próxima sexta-feira 22 de outubro começa a maratona cinematográfica na cidade de São Paulo com a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O Kinemail estará lá, cobrindo o máximo possível dos mais de 400 filmes em exibição nas mais de 20 salas participantes. Esse ano a Mostra traz retrospectiva do diretor francês F. G. Ossang, do armênio Serge Avedikian, faz homenagens a Bent Hamer, à atriz alemâ Hanna Schygulla e exposições com fotos de Wim Wenders e storyboards originais de Akira Kurosawa. A 34ª Mostra SP tem dois cartazes oficiais, assinados por Wim Wenders e Akira Kurosawa.



Na programação, ainda incompleta, alguns filmes que prometem lotar as concorridas sessões. Manoel de Olivera e O Estranho Caso de Angélica abrem a festa. Sofia Coppola apresenta o vencedor do Leão de Ouro em Veneza, Um Lugar Qualquer, enquanto Apichatpong Weerasethakul (acertei?) traz a Palma de Ouro 2010, Tio Boome, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. Entre outros vencedores de Cannes estão Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, vencedor do prêmio de melhor atriz para Juliette Binoche, o melhor diretor Mathieu Amalric e seu Turnê, e Poesia, de Chang-dong Lee, vencedor de melhor roteiro. O documentário Exit Through The Gift Shop traz a versão cinematográfica do genial artista plástico Banksy, equanto a ficção Gainsbourg – Vida Heróica cinebiografa as aventuras de Serge. Da Índia, Peepli Live e Udaan são as aguardadas atrações. Já Hollywood vem com Atração Perigosa, elogiado segundo filme do agora diretor Ben Affleck, Você Vai Conhecer O Homem de Seus Sonhos de Woody Allen, Machete de Robert Rodriguez, e os indies Cyrus, dos irmãos Duplass, Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko, e Sentimento de Culpa, de Nicole Holofcener.



Os ingleses A Última Estação (indicado a dois Oscar) e Não Me Abandone Jamais, de Mark Romanek, já chegam calibrados, assim como os franceses MicMacs (Jean-Pierre Jeuneut), Potiche (François Ozon), Os Amores Imaginários (Xavier Dolan) e Socialismo de Godard. A animação O Mágico, de Sylvain Chomet, deve criar longas filas. Des Homme et de Dieux (Xavier Beuvois), Caterpillar (Koji Wakamatsu), My Joy (Serguei Loznitsa), A Nossa Vida (Danielle Lucheti), A Árvore (Julie Bertucelli) e The Housemaid (Sang-soo Im) devem atrair os cinéfilos antenados nos festivais. Do Brasil, Bróder de Jefferson De, A Suprema Felicidade de Arnaldo Jabor, e Lope de Andrucha Waddington, são as principais atrações até agora. Pernambuco está representado pelo documentário Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro. Alguns títulos ausentes dessa pré-lista foram sentidos, como os que foram exibidos no FestRio (O Assassino Dentro de Mim de Michael Winterbottom, A Vida Durante a Gurerra de Todd Solondz, Um Homem Misterioso de Anton Corbjin, Carancho de Pablo Trapero, Scott Pilgrim Contra O Mundo de Edgar Wright) e que logo devem ser confirmados, assim como outros filmes aguardados e que podem ter sua estreia oficial no Brasil durante a Mostra (A Rede Social de David Fincher, Fair Game de Doug Liman, Another Year de Mike Leigh, Tamara Drewe de Stephen Frears, Winter’s Bone de Debra Granik, melhor filme em Sundance, e Black Swan de Darren Aronofsky).

Confira os filmes confirmados e outras informações no site oficial da Mostra. Leia em http://www.mostra.org/
E acompanhe nossa cobertura com notícias e críticas aqui, a partir de sexta-feira 22.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Tudo sobre minha mãe palestina


Depois do inclassificável Intervenção Divina (2002), o diretor palestino Elia Suleiman (um Buster Keaton contemporâneo) volta mais incisivo ao retratar a questão política Palestina/Israel e emociona profundamente pelo lado humano, ao contar a sua relação com a família, especialmente com a mãe, nesse excelente filme que, iniciando com o protagonista hoje, pegando um táxi para visitar a mãe, enfrenta uma tempestade no caminho e abre uma janela para contar a história da sua família a partir de 1948, com a criação do Estado de Israel e em saltos temporais nas décadas seguintes até os dias de hoje, mostrar, em tom de farsa e alegoria, com um humor ferino, fortemente visual, como nada muda, restando a nós, humanos (palestinos, no caso), continuar a viver pelo tempo que nos resta. Com forte herança do cinema crítico visual do francês Jacques Tati, Elia Suleiman faz um cinema que não se parece com nada hoje em dia. Construído como uma coleção de vinhetas, com negação do formal plano/contraplano clássico e uso incomum de planos frontais, além de uma visão brilhante da arquitetura visual dos espaços filmados e uso de ícones da cultura ocidental de massa (na trilha sonora, por exemplo, temos uma versão eletrônica de Staying Alive, dos Bee Gees), tudo resulta em um filme pop de imagens muito marcantes, mas Suleiman vai muito além, e quando a fita volta aos dias atuais, quando se consuma a visita do protagonista à sua mãe, O QUE RESTA DO TEMPO alcança poesia e dramaticidade pungentes, de levar às lágrimas. Ignorado na premiação em Cannes 2009 (e até criticado pela sua irreverência politicamente incorreta alfinetando a política israelense), é um dos grandes filmes de 2009. Não deixe de ver.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: ÓTIMO
Visto em 28/10 no Reserva Cultural

Deixa Ela Entrar revisto


A Mostra 2009 trouxe retrospectiva do cinema sueco, com filmes de Jan Troell e Hasse Ekman e sessões especiais de vários filmes com a presença dos diretores. Um deles foi o premiadíssimo DEIXA ELA ENTRAR, terror exibido na Mostra do ano passado que está em cartaz atualmente no sul e sudeste do país há cerca de um mês, leia crítica AQUI. Enquanto Recife aguarda a estréia do excelente filme de Tomas Alfredson, reassisimos ao longa em sessão especial com debate com o diretor após a exibição. DEIXA ELA ENTRAR não mudou do ano passado pra cá, continua sendo um dos mais doces, macabros, belos e tristes filmes sobre amor juvenil (e vampiros) que já vi, e cada vez que a assisto percebo novas nuances e detalhes que fazem o filme crescer ainda mais na minha cabeça.

Por Filipe Marcena
Cotação: ÓTIMO
Visto em 29/10 na FAAP

domingo, novembro 01, 2009

Vitalidade de um diretor aos 100 anos

Muita expectativa para o novo filme do produtivo diretor português Manoel de Oliveira, que ainda filma com 100 anos de idade, SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, visto sentado no chão numa sessão lotada no shopping Frei Caneca. Quase um curta metragem na sua concepção e, de fato, com apenas enxutos 63 minutos de duração, o filme é uma pequena pérola de puro cinema, de uma graciosidade e linguagem cinematográfica irretocáveis, onde Manoel de Oliveira filma com domínio completo de jogo cênico, tempo e espaço, talvez só mesmo possível por ser um cineasta que viveu toda a história do cinema, tendo nascido em 1908. Filme é adaptação de um pequeno conto moral de Eça de Queiroz, sobre um sujeito de boa índole que se apaixona pela imagem de uma linda jovem loura que mora no prédio em frente ao seu escritório. Da paixão idealizada à decepção com o mundo real, o rapaz conta a sua estória em flashbacks a uma senhora que o ouve com atenção numa viagem de trem. Alguns momentos são simplesmente encantadores, irônicos e belos como o close que a câmera dá no sapato vermelho da garota no primeiro beijo ou a maravilhosa cena final. Nada de obra-prima, mas é cinema do bom, como os jovens cineastas atuais, sedentos por câmeras mirabolantes e montagem sem significado, parecem não saber fazer. Aprendam com o mestre, pois o cinema mais difícil de fazer é aquele simples, objetivo e inspirado. Na plateia, ao final da rápida sessão, pairou no ar uma sensação imediata de decepção. Mas Manoel de Oliveira faz um cinema que é maior que as nossas pobres críticas apressadas. E segue em frente: às vésperas de completar 101 anos, esse sujeito eternamente jovem de espírito, já está finalizando seu mais novo filme, O Estranho Caso de Angélica, e eu já estou esperando pra ver.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: BOM
Visto em 28/10 no Unibanco Arteplex

Sexo entre amigos


Ben (Mark Duplass) e Anna (Alycia Delmore) são um jovem e feliz casal médio americano. As estruturas se abalam quando Andrew (Joshua Leonard, de A Bruxa de Blair), amigo hippie da infância de Ben, resolve visitá-los. Numa festa "dionisíaca", surge uma bizarra proposta. A fim de participar do Humpfest, festival de vídeos pornôs amadores "artísticos", Ben e Andrew decidem transar como uma "prova de amizade" e para tentar ganhar a competição. Percebe-se pela quantidades de aspas que usei que O DIA DA TRANSA necessita muito de certo esforço do espectador para ter que funcionar. A situação toda é estapafúrdia demais para se engolir, e seria necessário um roteiro muito esperto para suspender a descrença do público. Não é o caso aqui. Por mais talentoso que seja o trio central de atores, poucos diálogos realmente convencem dentro da proposta, forçando a barra e a paciência de todo mundo. Até mesmo Ben chega a conclusão de que aquilo é tudo muito estúpido em certo ponto do filme, o que piora a sensação de frustração em relação à caretice e à falsidade filme. Talvez o problema esteja em Lynn Shelton, diretora que parece não entender muito bem as relações masculinas de amizade.

Por Filipe Marcena
Cotação: FRACO
Visto em 29/10 no Espaço Unibanco

sábado, outubro 31, 2009

Técnica excelente mas roteiro banal


Ficção científica em animação tem começo empolgante, usando uma técnica de colagens digitais a partir de fotos dos atores, com um efeito visual perturbador. Filme de produção sueca, METROPIA, falado em inglês, conta com atores americanos nas vozes como Vincent Gallo e Juliette Lewis. O filme se passa numa Europa de um futuro próximo, em 2024, onde a crise do petróleo conduz a um projeto de integração europeia via metrô. O governo controla os indivíduos através de um produto químico inserido nos shampoos, que possibilita ouvir as mentes dos cidadãos. O protagonista Roger começa a ouvir vozes na sua cabeça. Infelizmente, o roteiro repete ideias já muito vistas, de 1984 até Gattaca e Renaissance. O fiapo de trama tenta injetar suspense e ação que não funcionam muito bem. Mais uma vez, temos o previsível caso de técnica muito superior à originalidade do roteiro.

Por Fernando Vasconcelos
Cotação: REGULAR
Visto em 28/10 no Cine Bombril