quarta-feira, outubro 31, 2007

Sublime retrato da adolescência


Terça 23 - PARANOID PARK EUA, 2007

O cineasta americano Gus Van Sant tem uma trajetória muito particular. Apareceu no começo dos anos 90 com os cultuados Drugstore Cowboy e My Own Private Idaho (aqui Garotos de Programa, com atuação memorável do tragicamente falecido River Phoenix). Aberta a porta para Hollywood, ele realizaria obras mais acessíveis como o razoável Gênio Indomável, o excelente To Die For - Um Sonho Sem Limites, com Nicole Kidman e Joaquin Phoenix, e o inexplicável remake do Psicose de Hitchcock. Pausa. Na virada do milênio é que Van Sant mostrou a que veio. Os filmes gêmeos Gerry (que ninguém viu) e Elefante (Palmade Ouro em Cannes 2004), seguidos de Last Days (no Brasil somente em DVD) e desse novo Paranoid Park, colocam Van Sant num patamar sem paralelo no cinema atual pela sensibilidade em olhar o adolescente do mundo contemporâneo.

A Mostra SP está chegando ao fim e, certamente, Paranoid Park foi um dos mais perfeitos e impressionantes filmes que vi na maratona. Van Sant melhora a cada filme e, se sua obra não se parece com nada do cinema comercial, este é também o mais acessível de seus filmes recentes. Baseado em livro, é sobre um garoto que mata acidentalmente um vigia noturno na área barra pesada do 'Parque Paranóia' do título, frequentado por skatistas e marginais. O jovem skatista Alex (Gabe Nevins, ótimo estreante) é seguido pela câmera durante todo o processo conflituoso que vive a partir do acidente, mostrado explicitamente numa cena que intencionalmente destoa não só do filme como de toda a filmografia de Van Sant (um homem agonizando, com o corpo partido ao meio, num trilho de trem). Há, claro, a investigação policial. Mas o filme está interessado em registrar o que se passa com o garoto, num incrível processo de intimidade com esse personagem. A relação distante com os pais, as sutis observações sobre masculinidade e sexualidade (sempre com o olhar gay de Van Sant, mas nunca tendencioso), o primeiro namoro, a dificuldade de relacionamento e adequação ao mundo à sua volta. Com o perfeito e muito pessoal uso da câmera e, em especial, o delicado design de som, que cria climas líricos, soturnos, de efeito sensorial só conseguido numa sala de cinema, temos uma pequena obra-prima de puro cinema, que sabe olhar seu personagem e não precisa de nenhum discurso falado, nem de conclusões convencionais. Uma obra em aberto para leituras infinitas. Gus Van Sant confirma-se como um dos maiores cineastas atuais. Com apenas 85 minutos de duração, Paranoid Park é literalmente um pequeno grande filme.
Cotação: ótimo

terça-feira, outubro 30, 2007

Babel turco-alemão


Segunda, 22 - DO OUTRO LADO Ale/Turquia, 2007

Esse aqui é que foi uma tremenda decepção. Dirigido pelo jovem turco-alemão Faith Akin, 34 anos, que ganhou notoriedade com o belo Head On - Contra a Parede (2005, disponível em DVD), Do Outro Lado ganhou prêmio de melhor roteiro em Cannes 2007, com um roteiro de construção orgulhosa em que vários personagens e historinhas se cruzam com coincidências tão poéticas quanto artificiais. A lembrança de Crash e Babel paira no ar e não é bom sinal. A impressão que dá é que roteiros assim são escritos em função da possibilidade de ganhar prêmios em festivais de cinema. E funcionam. A pretensão aqui é abordar os contrastes culturais e sociais dos imigrantes turcos na Alemanha. Dividido em dois atos envolvendo tragédias acidentais, o primeiro é A Morte de Yeter, uma prostituta turca na Alemanha, e é mais interessante. O segundo ato, A Morte de Lotte, uma garota alemã na Turquia, sofre de humanismo forçado, maquinações nem um pouco críveis do roteiro e, quando a moça é atingida por uma bala perdida num bairro miserável da Turquia (oh não... Babel 2??), eu já havia desistido do filme, que caminha para uma meia hora final de reconciliações de família, discurso 'humano' dos personagens etc. Cheio de boa intenção mas... quem ainda agüenta esses roteiros que, equivocadamente, são considerados 'influência' de Robert Altman? O cinema de Altman nunca teve nada a ver com blefes como Crash, Babel e, agora, esse Do Outro Lado. Como curiosidade, o elenco conta com a atriz Hanna Schygulla, hoje uma senhora alemã, mais conhecida como a sexy atriz de filmes de R.W. Fassbinder nos anos 80.

Cotação: bom, pra menos

segunda-feira, outubro 29, 2007

Maconheira aloprada em Los Angeles


Domingo 21 - SMILEY FACE EUA 2007

Essa foi a primeira decepção da minha programação. Novo filme de Gregg Araki, que dirigiu um dos melhores filmes que vi ano passado, Mistérios da Carne (Mysterious Skin, 2005, disponível em DVD), volta com uma comédia bobinha, com cara de especial da MTV, sobre uma garota de Los Angeles (Anna Faris) num dia de confusão federal, em que ela, completamente chapada de maconha, tem que ir a um teste de elenco e atravessar a cidade para pagar uma dívida a um traficante no Encontro Anual dos Maconheiros de LA. No meio do caminho, arrasta um nerd que dá carona e dinheiro e rouba por engano um Manifesto Comunista de um professor. O filme é divertido mas, em clima de Mostra de Cinema, é um tremendo desperdício programá-lo entre mais de 400 filmes. Smiley Face sofre ainda da síndrome da comédia de uma piada só, que cansa antes da metade dos seus rápidos 85 minutos. Vale ver com os amigos em DVD em casa. O elenco conta com bons nomes da comédia americana. Além de Anna Faris (que faz pontas em Lost in Translation e Brokeback Mountain), temos Adam Brody (The O.C.), John Krasinski (The Office), Jane Lynch (O Virgem de 40 Anos) e John Cho (Harold and Kumar Go To White Castle).
Cotação: regular

Mundo corporativo e nazismo


Domingo 21 - A QUESTÃO HUMANA Fra, 2007

O que me atraiu para ver esse filme foi a presença desse ator sensacional que é o Mathieu Almaric (Munique, Reis e Rainha) no elenco, que ainda conta com o veterano Michael Lonsdale (também de Munique). Filme é um retrato cruel do mundo corporativo da cultura globalizada neoliberal etc etc etc. que desce até o nível mais desumano, em conexões com o nazismo de mais de 50 anos atrás. Temos um psicólogo de RH em uma grande corporação. Solitário, ele contenta-se em ser um grande profissional dessa área, até que um dos sócios da empresa pede para ele investigar o que está acontecendo com o diretor geral, que apresenta comportamento depressivo e desequilíbrio emocional. Na superfície, temos um filme de investigação, de mistério. Mais fundo, temos um dos mais pessimistas retratos do mundo contemporâneo, com ecos do passado sombrio nazista, associando as grandes corporações modernas e seu sistema de eliminação dos menos capazes e busca desumana de produtividade e lucro ao ideal alemão que exterminou milhões durante a segunda guerra. Esse mundo atual que parece um ideal de eficácia e seleção 'natural' dos mais competentes não é mais que uma 'evolução' piorada das formas mais retrógadas de ver o mundo. Terrível, incômodo, devastador, A Questão Humana só não é ótimo porque é mais literatura que cinema. Baseado em livro, o filme investe mais no discurso do que nas imagens, incluindo uma longa e sombria narração final com a tela em negro. Não é um problema, mas certamente ler o livro deve ser uma experiência mais completa. Filme adulto, pessimista, para poucos. Será comprado para o Brasil?
Cotação: bom

sexta-feira, outubro 26, 2007

Tarantino & The Pussy Power!



Domingo 21 - À PROVA DE MORTE EUA, 2007

E começa o segundo round de Grindhouse! Depois do fracasso comercial da proposta de exibir os dois filmes juntos, o lançamento internacional separa Planeta Terror de À Prova de Morte. Melhor para Rodriguez, porque seu filme vira poeira diante do filme de Tarantino. No mesmo nível de diversão e cinefilia de Kill Bill, ou até acima dele, Tarantino reprocessa toda a sua enciclopédica cultura de cinema B e faz muito mais que uma homenagem retrô. Revelando-se cada vez mais um autor que celebra a força e beleza das mulheres no cinema popular, Tarantino vai além da citação e faz um filme que SÓ poderia ser dele e, mesmo celebrando o cinema dos anos 70, pode ser visto como um produto contemporâneo, vibrante, com seus diálogos impagáveis e cenas de ação, perseguição de carros, briga no braço, simplesmente eletrizantes. Precisava ver a empolgação da cabine de imprensa quase lotada. Tivesse tempo, eu iria ver de novo numa sessão com o público. O filme é basicamente uma perseguição em duas fases. Na primeira, o vilão misógino e sádico StuntMan Mike (Kurt Russell, sensacional) persegue quatro garotas, as quais assassina impiedosamente. Na segunda metade, um novo grupo de garotas será alvo da perseguição e elas viram a mesa numa vingança igualmente impiedosa. À Prova de Morte pode não ter a pretensão épica de Kill Bill, mas talvez até por isso, é mais uma sessão de um cinema pop originalíssimo que só Quentin Tarantino sabe fazer. Imitadores não chegam nem perto.
Cotação: ótimo

Masturbação cinéfila de Rodriguez


Domingo 21 - PLANETA TERROR EUA, 2007

Caros leitores, é filme demais todo dia nessa Mostra! De forma que, para tentar dar cobertura de tudo que estou vendo, a solução são comentários mais curtos. Vamos lá: A imprensa aqui teve o privilégio de assistir o projeto Grindhouse na íntegra, com direito aos falsos trailers que emendam os dois filmes de Robert Rodriguez & Quentin Tarantino, Planeta Terror e À Prova de Morte, respectivamente. Vimos Grindhouse numa manhã de domingo. Como já bastante divulgado, Grindhouse é uma homenagem ao cinema B americano dos anos 70, quando era comum a exibição de sessões duplas com filmes baratos de 'ação, violência e peitos', em cinemas vagabundos. Em Planeta Terror, Rodriguez diverte-se em mimetizar o gênero, contando historinha gosmenta de ataque de mortos-vivos, com direito a uma gata gostosa (Rose McGowan) que perde uma perna num ataque dos zumbis e a substitui por uma metralhadora!
O filme é divertido, mas Rodriguez nunca vai além do que qualquer cinéfilo adolescente faria, se tivesse a oportunidade de torrar milhões de dólares e contratar um elenco delicioso para essa brincadeira off Hollywood. Contradição: os efeitos especiais digitais para a perna-metralhadora de Rose McGowan são bem feitos demais para um filme B de orçamento barato... Planeta Terror, se não me engano, está estreando em Recife nessa sexta 26/10 e serve de aperitivo para o sensacional, empolgante, À Prova de Morte, a parte tarantinesca de Grindhouse, leia acima.
Cotação: regular

Desejo, Perigo



Sábado 20 - LUST, CAUTION China/EUA 2007

Depois do megasucesso O Segredo de Brokeback Mountain, Ang Lee está de volta com outro filme que polemiza, desta vez por cenas de sexo explícito (?), ao contar um romance proibido envolvendo uma estudante de um grupo de resistência à ocupação japonesa, escolhida para seduzir um importante figurão chinês traidor, na Shangai de 1942. O momento histórico complexo e delicado é bastante metafórico (trata-se de um 'filme de guerra' sem nenhuma cena de 'guerra') e o filme não tem pressa narrativa, de forma que leva mais de uma hora (das quase 3 de duração) pra criar envolvimento do espectador. Basicamente, é um filme de tensão erótica entre opressor e oprimido (lembrando o setentista O Porteiro da Noite), bem dirigido por Ang Lee, com a sua habitual sensibilidade para registrar amores reprimidos. Mas não há nada de muito novo em cena, a não ser a surpresa das cenas de sexo, apenas no terço final da fita. Apesar de bem fortes para o padrão americano (onde o filme já está amaldiçoado, a ser exibido no restrito 'circuito de arte'), não espere o divulgado sexo explícito. Tony Leung e a novata Tang Wei ousam cenas de nudez e simulação do ato sexual, mas nada que chegue ao sexo gráfico explícito de um Império dos Sentidos, por exemplo. No mais, é um cinema de impecável reconstituição de época, premiada direção de fotografia de Rodrigo Preto e duas boas atuações. Tony Leung (Amor à Flor da Pele, Infernal Affairs, Hero, 2046) está excelente como sempre, mas a jovem chinesa Tang Wei rouba a cena, numa composição sutil de personagem e, claro, em corojoso desnudamento físico. Lust, Caution venceu o Festival de Veneza 2007, prêmios de melhor filme e direção de fotografia.

cotação: bom, pra menos

segunda-feira, outubro 22, 2007

Programação e filmes off Mostra


Falta de tempo fez com que eu deixasse novamente para tirar convites não-antecipados no sábado, na bilheteria do cinema. Sábado ensolarado, SP não tem praia... Isso: tudo esgotado. Só consegui tirar ingresso para o concorrido Lust, Caution, o novo filme de Ang Lee que venceu o Festival de Veneza 2007 e tem sido comentado por cenas ousadas de sexo. Abro um parêntesis para comentar a agonia que é tentar fazer a sua programação dentro do que a Mostra SP oferece. Além dos medalhões mais visados pelo público, temos uma generosa oferta de filmes de diretores novatos, com boas apostas para filmes orientais, latinos, africanos, incluindo a curiosa participação de muitos atores famosos apresentando seus exercícios por trás das câmeras, como Gael Garcia Bernal, Ethan Hawke, Steve Buscemi, Ricardo Darin, Ben Affleck, Sarah Polley, Valeria Bruni Tedeschi, Jane Birkin e outros. Ainda, as novidades do cinema brasileiro, incluindo Deserto Feliz, do pernambucano Paulo Caldas, um grande número de documentários, incluindo o Sicko de Michael Moore, e retrospectivas completas de diretor veterano (Claude Lelouch) e novo talento oriental (Jia Zhang-ke). E, acredite, num final de semana de abertura como esse, TODAS as sessões são lotadas, com ingressos disputados em filas com direito à bate-boca. A saída para essa tarde 'perdida' na Mostra foi assistir um dos filmes que estão em cartaz no circuitão local. O ótimo Superbad ficou meio perdido como estréia no começo dessa Mostra. Mas vale checar, esse filme já é um clássico pop teen instantâneo. Os três guris nerds são impagáveis.

Sábado, 18 - PIAF - UM HINO AO AMOR Fra, 2006

Acabei conferindo o festejado Piaf - Um Hino ao Amor (ou La Môme ou La Vie en Rose) em sessão multipléxica lotada (a impressão é de que paulista e cinema são sinônimos no fim de semana!) de elegantes senhoras e senhores, muitos provavelmente fãs e contemporâneos da brilhante cantora francesa. Já recomendado por muitos amigos que viram antes, confesso que o filme me decepcionou. Enquadra-se naquele ramo das grandiosas cinebiografias que, longe de humanizar o biografado, o colocam num pedestal de mitificação onde tudo fica acima da vida. A música é pomposa, os números musicais são espetacularmente dramáticos, a infância pobre segue todos os clichês do gênero, o romance com o lutador de boxe é contado como um espetáculo over-scorseseano em suntuoso Cinemascope, com tom de minissérie realizada com muitos milhões de dólares. O resultado é que, com pouco mais de duas horas de duração, o filme parece ter três e, se emociona melodramaticamente (as lágrimas na sessão encheriam um balde), deixa muito pouco na memória ou no coração após a sessão. Como cinema, a estrutura narrativa com idas e vindas cronológicas não consegue superar o convencionalismo do todo e, longe de ter algum charme europeu, o filme segue a cartilha do espetáculo hollywoodiano ao pé da letra. Oscar é a palavra que pisca o filme inteiro, da direção de arte ao design de som, tudo parece implorar pela atenção dos membros da Academia. O que fica de Piaf - Um Hino ao Amor é a atuação 'um espírito baixou em mim' da jovem Marion Cottilard e algumas sequências bem construídas (a melhor delas, uma notícia trágica que começa em casa e, em plano-sequência sofisticado, termina num palco onde Piaf canta uma música pelo amor perdido). Embora eu ache que a interpretação é mais física do que emocional, é admirável a personificação, cobrindo da juventude à velhice precoce da dura vida de Edith Piaf. Uma indicação ao Oscar seria um nobre reconhecimento ao trabalho de Marion. No mais, valeu pela homenagem, é um grande espetáculo, mas a pequenina Edith Piaf merecia um filme maior (e de menor duração).

Cotação: bom, pra menos

domingo, outubro 21, 2007

Afinal, o que é cinema?



Sexta, 19 - IMPÉRIO DOS SONHOS Fra/Pol/EUA, 2006

Mais uma sessão lotada, 23h30 da noite, para entrar pela madrugada com o novo épico audiovisual de 3 horas de duração de David Lynch, Inland Empire, um dos filmes mais aguardados dessa Mostra, que a Europa Filmes teve a ousadia de comprar para o Brasil e será lançado ainda nesse novembro nos nossos cinemas (o filme foi ignorado pelo público americano e, até agora, é uma espécie de mimo de festival de cinema, sem muitas possibilidades de exibição comercial). Desde a obra-prima A Estrada Perdida, de 1996, Lynch vem entortando o conceito do que seja uma narrativa cinematográfica ou o sentido lógico dela. O anterior Mullholand Drive foi seu maior sucesso recente nessa temática. Não por acaso a tradução fácil aposta em 'sonho' (Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos são os títulos aqui, não inadequados mas definitivamente limitadores de significado). Se Lynch ainda flertava com as bases da narrativa de suspense, terror, para dar algum fio da meada para o espectador, dessa vez, acredite, ele ousou reinventar o próprio cinema. Ainda não sei se gostei (é impossível classificar esse filme no bobo sistema de 'estrelinhas'), mas durante as três horas alucinantes (ou irritantes, dependendo do espectador) de Império dos Sonhos a pergunta mais freqüente que você fará é: QUE PORRA É ISSO QUE EU ESTOU VENDO??? Intelectuais e críticos farão as costumeiras 'interpretações psicológicas' mas, minha opinião (e acredito totalmente que a intenção do diretor) esse não é um filme para ser entendido, explicado. Lynch propõe um mergulho radical numa experiência sensorial/audiovisual em que o filme é o que está na tela, durante aquelas três horas. Qualquer tentativa de verbalizar/explicar o filme é inútil, pobre.

À principio há a ilusão de que veremos um filme-gêmeo de Mullholand Drive. Temos uma atriz (Laura Dern, atriz-fetiche de Lynch, num papel escrito especialmente para ela, que se entrega de forma impressionante ao personagem), em vias de conseguir um papel principal num filme de Hollywood (vista com o mesmo cinismo e ironia de Mullholand Drive). Saberemos que o filme é um remake, mas de um filme 'maldito' que ficou inacabado com a morte dos protagonistas. Metalinguagem: vemos as filmagens, o diretor, o produtor, cenas do filme que se confundem com a vida real da atriz protagonista. Durante mais ou menos uns 40 minutos, parece que veremos mais do Lynch de sempre. Então, let's get freak, baby!: o personagem desdobra-se em várias linhas narrativas e temporais. Efeitos estrobocópicos, fantasmagóricos, começam a diluir a narrativa de forma visivelmente irreversível. Cenas perturbadoramente escuras, muito sangue, personagens bizarros, cruzam a tela caoticamente, numa sinfonia de imagens que, se se parecem com alguma coisa, isso seria um sonho/pesadelo. Lembre-se que estou falando de um filme de 3 horas de duração... Embarcar nessa viagem é um compromisso entre o espectador e o filme. Pelo jeito, a platéia dessa sesssão deu feedback: risadas irônicas, nervosas e até mesmo espontâneas acompanharam o filme até os momentos finais, que fecham a narrativa até com alguma 'lógica'. Mas esqueça a lógica do cinema convencional. Estou falando da lógica interna de uma obra de, mais que um cineasta, um artista inquieto, numa fase extremamente pessoal de seu trabalho, sem nenhuma concessão para o mercado. É embarcar ou pular fora. Como falei, nem sei ainda se gostei. Aliás, no caso de Império dos Sonhos, gostar ou não gostar parece um negócio ultrapassado. David Lynch anda querendo mexer com os limites do que seja cinema no mundo contemporâneo. Se está conseguindo, eu não sei, mas tenta de forma brilhante. Alguém já falou que a diferença entre o cinema e a vida é que, no cinema, a vida faz sentido. Acho que essa é a 'senha' para degustar Império dos Sonhos, filme obrigatório de 2007. Observação: Lynch realizou o filme em digital e declarou que não usará mais celulóide. Império dos Sonhos tem imagens digitalmente 'feias', quase trash, 'amadoras' mas, claro, como uma escolha estética intencional do diretor. Só vendo você perceberá o que quero dizer.

Cotação: inclassificável. Em 'estrelinhas'? Me diga você...

Quando as pedras rolavam



Sexta, 19 - SYMPATHY FOR THE DEVIL, Fra/Ing 1968
Pese a favor que eu sou fã da fase áurea dos Rolling Stones (digo de 1966 até 1972). Pese contra que eu não sou muito chegado ao cinema de Jean-Luc Godard. Peso final: Sympathy for the Devil é uma pequena obra-prima. Realizado em 1968 no furação das revoluções que acreditavam que o homem poderia evoluir, muitos consideram-no filme datado. Pelo contrário, acredito que o filme é algo absolutamente moderno, parecendo novinho em folha ainda pela cópia nova, límpida, apesar do som original nada Dolby Stereo. Longe de ser um documentário, ou documentário musical, o filme é puro Godard, um experimento artístico politizado que tenta entender o mundo através de uma canção, sem a menor idéia que esta seria eternizada, para futuras gerações, como uma das mais emblemáticas canções da história do rock. A única música que toca no filme, aliás, é Sympathy for the Devil, em várias sessões de ensaio e gravação em estúdio. Nem é um filme 'sobre os Rolling Stones'. Godard entrecorta a narrativa com esquetes visuais/teatrais que mostram atores declamando manifestos dos Panteras Negras num cemitério de automóveis; uma garota senso 'entrevistada' sobre feminismo, drogas, amor livre, por uma equipe de cinema num passeio por uma floresta; uma artista pichando lojas, automóveis e muros; e, o mais estranho de todos, o dono de uma livraria lendo trechos do Mein Kampf para seus clientes, enquanto vemos um mar de informação visual pop industrial em capas de livros, revistas, quadrinhos, pulp fiction e posters dos anos 60. Para fãs dos Stones, curioso já perceber o isolamento do líder criativo da banda Brian Jones no estúdio (um ano antes de ser encontrado morto na piscina de sua mansão) e a parceria Jagger & Richards já tomando o primeiro plano. Encerrando com um emocionante plano de grua numa praia com atores e, enfim, a gravação definitiva de Sympathy for the Devil, só sei que eu e mais uns poucos aplaudimos a sessão. Viva Godard!
Cotação: muito bom

Control fica devendo ao mito

Sexta 19 - CONTROL Ing/EUA, 2007

Minha primeira sessão da Mostra 2007 estava lotada de 'gente culta de preto' (muitos vestindo a camisa da banda) e teve início irritante: filmado em CinemaScope, Control começou com a lente errada, em tela quadrada com imagem espremida. Eu e mais alguns cinéfilos irados saímos e reclamamos e, com uns dez minutos de sessão, o problema estava resolvido. Cinebiografia de Ian Curtis, o vocalista e letrista de uma das bandas mais influentes doa anos 80, o Joy Division, Control não é um filme ruim de jeito nenhum, mas minha impressão ao final da sessão foi de leve decepção. A direção do estreante Anton Corbijn (famoso fotógrafo) acerta na narrativa sóbria, que não foge do tradicional sexo, drogas e rock'n'roll mas, na segunda metade de sua longa duração (2 horas), reduzindo o drama pessoal de Ian Curtis a problemas familiares, banais (crise no casamento, adultério, problemas com epilepsia), o filme não alcança beleza na dimensão existencial do jovem inglês depressivo fragilizado pela fama, que cometeu suicídio com apenas 23 anos. Claro, para fãs, o filme é uma bela homenagem, obrigatório. O destaque fica para o ator Sam Riley, numa atuação física sobrenatural (pra mim, a imagem de Ian Curtis agora passa a ser ele) e a sempre boa Samantha Morton, como a jovem esposa e mãe Deborah Curtis, autora do livro em que o filme é baseado. Filme de fotógrafo experiente, em preto e branco, nem precisa dizer que direção de arte é impecável. Acredito que Control sairá por aqui direto em DVD, tema muito específico (e em preto e branco...).

Cotação: bom, pra menos

Mostra SP: Começa a maratona 2007


Kinemail só nesse domingo começa a postar os comentários da Mostra SP. Cheguei aqui na quinta 18, em tempo de ir para o evento de abertura mas, acabado depois de virar uma noite de trabalho, pegar vôo de 8h da manhã (sem conseguir dormir um minuto), tirei o resto da quinta-feira só pra dormir e me recuperar, perdendo a festa de abertura, com O Passado de Hector Babenco, presença do diretor e do ator mexicano Gael Garcia Bernal. O poster oficial dessa 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é assinado por Hector Babenco, posando ele próprio de homem-cartaz no centrão de SP.
Oficialmente, a Mostra começou na sexta 19, quando eu já dei a maior burrada em deixar para tirar os convites no dia. A credencial de imprensa, eu não lembrava, só dá direito a retirar convites com 24 horas de antecedência na central do evento. Ou seja, para a sexta, só tinha como tirar convites na bilheteria de cada cinema (pra quem não sabe, a Mostra acontece em umas 20 salas espalhadas pela cidade, nem sempre perto uma da outra, apesar de uma boa concentração de salas no início da Av. Paulista). Resultado: quase tudo esgotado. Dei a maior sorte de me deslocar para a Sala IG (antiga sala UOL) e conseguir tirar convites para três sessões seguidas, em espírito totalmente rock'n'roll: Control, sobre Ian Curtis, o líder suicida da banda Joy Division, anos 80; Sympathy for the Devil, realizado em 1968 por Godard e provavelmente o mais rock'n'roll dessa Mostra 2007, o inclassificável Império dos Sonhos de David Lynch.

segunda-feira, novembro 13, 2006

C.R.A.Z.Y. tem Cristo pop


Sábado, 28 - C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR

O subtítulo nacional é ridículo como sempre e eu ainda estou tentando entender o que significa o Crazy abreviado do título original. Bem, C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR é um sucesso do ano passado no Canadá, onde faturou vários prêmios locais de melhor filme e muito mais e já está comprado para o Brasil. Tem tudo para virar um sucesso alternativo contagiante, de enorme apelo popular com a platéia jovem. Historinha alto-astral de uma família de classe média com cinco filhos homens. (Ei, talvez o título do filme sejam as iniciais dos nomes dos garotos!). Zachary Beaulieu (Marc-André Grondin) é o mais bonito da prole, nasceu no mesmo dia que Jesus Cristo, no Natal de 1960, com uma marca de nascença no cabelo negro (uma mecha loira) e, segundo a mãe, com abençoados poderes curandeiros. Assim como Cristo, Zachary parece ter algo de especial. Não, ele não é o Salvador. Zachary é gay e o filme acompanhará durante os anos 60, 70 e 80 sua luta contra a homossexualidade, para não decepcionar o pai, o que seria a vergonha da família, ele a ovelha negra dos cinco filhos homens. O formato é de sitcom, comédia dramática cool, pontuada por várias canções que farão você bater o pé na sala de cinema, com Rolling Stones, Pink Floyd e especialmente Space Oddity, de David Bowie, músico que Zachary, claro, adora.

Com os esperados exageros da linguagem videoclipe em algumas passagens, C.R.A.Z.Y. tem como maior qualidade uma abordagem da sexualidade do rapaz de forma um pouco menos esperada. Não é um filme de jeito algum endereçado ao público gay. Zachary reluta em assumir-se, confuso que está, como qualquer adolescente. Ele namora oficialmente a amiga de infância e chega até a encher de porrada um amiguinho gay com quem ele faz brincadeiras sexuais juvenis. Também, não há cenas de beijos ou sexo entre homens. A cena mais sexy do filme é quando Zachary brecha, de dentro de um armário (!!), seu irmão mais velho transando com a namorada. E o momento em que Zachary finalmente se assume, numa viagem psicodélica e solitária para a Europa e Jerusalém, é bastante discreto, subjetivo.

O filme nunca será sobre Zachary assumir ser gay, mas sim sobre como se desenvolvem as relações familiares através das décadas, com o irônico detalhe de que o irmão mais velho de Zachary se tornará, de fato, a ovelha negra da família, viciado em drogas pesadas e vivendo à beira da morte. A chave de leitura é o clássico italiano Rocco e Seus Irmãos (1960), obra-prima de Luchino Visconti, onde o sacrifício de um dos irmãos será o catalizador na união da família. Com uma atuação cativante de Michel Coté (certamente veterano ator popular no Canadá) como o pai, bronco mas 'louco de amor' pelos filhos, C.R.A.Z.Y. é um filme fofinho, irresistível, embora um pouco longo demais, passando de duas horas de duração (algo talvez agravado por eu ter assistido numa sessão à meia-noite, após três outros filmes vistos). É a indicação oficial do Canadá para concorrer a uma vaga no Oscar 2007 de melhor filme estrangeiro. Boa notícia: C.R.A.Z.Y. será exibido em sessão única nessa sexta 17, 21h20, na programação da MostraMundo 2006, no Cinema da Fundaj, aqui em Recife.

Antonia tem periferia pop


Sábado, 28 - ANTONIA

Já bastante divulgado em formato de seriado de TV, Antonia, o filme, está previsto para estrear só em 2007. Provavelmente a estratégia comercial é popularizar os personagens (quatro garotas pobres, da periferia paulista) e levar o público a ver um material inédito final nos cinemas. Bem, tem tudo pra funcionar. Antonia adota a fórmula Cidade de Deus de 'vejam, brancos que vão ao cinema do multiplex, como a periferia é pop!' e funciona, independente de você aprovar ou não o formato publicitário chique com câmera na mão. Como já divulgado na TV, o filme conta a história de quatro garotas negras (ótimas atrizes novatas) que moram na Vila Brasilândia, periferia de São Paulo, e lutam pelo sonho de formar um grupo musical, o Antonia do título, e (sobre)viver da sua arte.

Elas deixam de ser backing vocals de um grupo de rap masculino e formam sua própria banda. O sucesso local, com música própria e identidade com o público de periferia, é imediato no início, mas o dinheiro não vem. Elas precisarão da ajuda de um 'empresário', o mala sonhador Marcelo Diamante (DJ Thaíde, engraçado), submetendo-se a cantar em bares de branco mané classe média em São Paulo, onde trocam sua música por covers de Killing me Softly e sucessos de Lulu Santos, em troca de um cachê mísero mas regular, certo. Enquanto vão tentando firmar-se, a dura vida de pobreza na periferia vai separando as meninas, de prisão a gravidez e outras fatalidades que fazem parte do cotidiano da periferia mais pobre.

Dirigido com agilidade por Tata Amaral (Um Céu de Estrelas e Através da Janela) e produzido com eficiência por Fernando Meirelles, Antonia diverte, emociona e cumpre bem a proposta de cinema-entretenimento focado nas parcelas da sociedade brasileira que não vão ao cinema. Em algum lugar, fica um incômodo de esperar algo de mais contundente e forte emocionalmente, mas talvez seja uma cobrança equivocada da minha parte, de achar que não combina ver pobreza maquiada pra ser consumida com pipoca e coca-cola, aquela questão do filme Cidade de Deus ter despertado tanta discussão por embelezar e 'popficar' a miséria do Brasil e deixar a humanidade real dos personagens em segundo plano. Antonia é um filme legal. Ponto.

Don Quixote numa visão muito pessoal


Sábado, 28 - HONOR DE CAVALLERIA

Fato curioso de ver tantos filmes em 15 dias é que a memória trabalha de uma forma seletiva especial. Todos os filmes 'normais', que trabalham fórmulas e técnicas visuais já dominadas pelo excesso de informação audiovisual atual, acabam evaporando da mente e aqueles filmes considerados 'difíceis' (mesmo pelo público cinéfilo de carteirinha) ficam gravados com uma intensidade incrível na nossa cabecinha. É o caso desse indescritível Honor de Cavalleria (Honra de Cavalaria, em português, se for algum dia comprado para o Brasil, algo que acho quase impossível, diria que é humanamente impossível tentar ver esse filme em DVD numa televisão).

O filme é uma adaptação bastante livre, quase abstrata, do clássico da literatura Don Quixote. E de literatura não tem nada, é um registro absolutamente cinematográfico, em tom quase de pseudo-documentário, realizado por um diretor espantosamente jovem, o espanhol Albert Serra, 31 anos, ainda em seu segundo longa. Acompanhamos o famoso cavaleiro e seu fiel escudeiro em algumas situações radicalmente naturalistas (em tempo e espaço), em campos espanhóis, aparentemente sem destino, em busca de aventuras mas, na maior parte do tempo (como deveria ser realmente naqueles tempo medievais) absolutamente nada acontece. Não é desenvolvida nenhuma trama e a dupla cruza com pouquíssimos personagens, rumo ao final da fita. Basicamente, Honor de Cavalleria mostra, de forma minimalista ao extremo, com diálogos mínimos porém essenciais (acho que tirados literalmente do livro) a bela amizade entre Don Quixote e Sancho Pança (dois atores impecáveis, Lluís Carbó e Lluís Serrat), que vai revelando-se aos poucos o grande tema do filme, de forma nobre, grandiosa e emocionante para quem ficar até o final da sessão.

Retrato desconcertante da impaciência do público diante de um filme lento mas, principalmente, de um filme que o público não sabe como olhar, pela recusa em aceitar uma obra que não é igual às outras, não se encaixa em qualquer padrão estabelecido, não pode ser rotulada facilmente nem como 'filme de arte', vi nessa sessão uma debandada de uns 50 espectadores (numa sala lotada, certamente pela cotação máxima da Folha SP do dia, que atrai espectadores como moscas famintas diante da quantidade de filmes desconhecidos oferecidos). Enfim, claro que eu achei difícil atravessar o filme, há passagens excruciantemente lentas, sem qualquer ação, mas, se até agora eu não consigo esquecer das imagens do filme, do seu ritmo e som orgânicos e incomuns, de seus não-personagens magníficos, de sua desconstrução do que se entende por roteiro cinematográfico, o que é Honor de Cavalleria senão uma autêntica obra-prima, na sua mais didática definição? Viva Espanha!

Edmond é puro David Mamet


Sábado, 28 - EDMOND

O estilo verborrágico seco e preciso do escritor de teatro e cinema David Mamet ganhou notoriedade a partir dos anos 80, quando ele próprio começou a dirigir seu material em filmes marcantes como As Coisas Mudam, Homicídio e Oleanna, até os recentes State and Main, O Assalto e Spartan, todos com a marca inconfundível dos roteiros exatos, sem excessos, de Mamet. Dessa vez, a direção ficou nas mãos de Stuart Gordon, diretor mais conhecido pelo cinema B de Re-Animator, From Beyond e o surpreendente Tratamento de Choque (King of the Ants, 2003), sua fita anterior a esse Edmond, peça teatral de Mamet de 1982, adaptada de forma bastante correta por Gordon, tanto que, como os melhores filmes de Mamet, tem curtíssima duração, apenas 82 minutos. E a trajetória de transformação radical que o personagem-título (William H. Macy, perfeito para o papel) sofrerá no filme é assombrosa justamente pela concisão, objetividade e economia didática com que é narrada.

O filme Edmond quer provar por A + B que o homem é produto do meio ambiente em que vive. Assim, vemos a tese de que um americano branco, rico, heterossexual, racista, homofóbico, arrogante e egoísta e o seu oposto extremo, um americano branco, loser, homossexual, apático, presidiário por assassinato e namorado de um negro (com quem divide a cela), podem ser mais próximos do que podemos imaginar. Julgamento moral relativizado, eles são apenas resultado das circunstâncias vividas. O filme inicia com Edmond abandonando a esposa num apartamento elegante e partindo para uma via crucis pela noite marginal de Nova York. Prostitutas, bares de strippers, garçonetes, traficantes, fanáticos religiosos e outros personagens irão cruzando seu caminho e transformando-o em outra pessoa.

Talvez o estilo David Mamet de roteiro já esteja meio datado, copiado à exaustão, mas nos anos 80 provocava um impacto violento sobre o espectador. Ainda assim, Edmond causou reações estranhas na platéia, desnorteada com o desdobramento das ações de Edmond, inicialmente uma figura detestável que, por vias muito tronchas, adquire algo de humano, sem pieguice. O formato do filme, um tanto televisivo (diálogos à frente da imagem, mas bem dirigido), sugere que deva ser lançado direto em DVD, com o apelo de um incrível elenco de famosos. Além de William H. Macy, temos participações mínimas de nomes como Joe Mantegna, Julia Stiles, Denise Richards, Dylan Walsh, Mena Suvari, Bai Ling e Rebbeca Pidgeon, esposa de David Mamet na real (e de Edmond, no filme).

sábado, novembro 04, 2006

Premiados da 30ª Mostra SP


Sexta-feira, 03 - PRÊMIOS PARA O CINEMA BRASILEIRO

O Blog Kinemail permanece no ar com atualizações dos filmes da Mostra 2006, após o encerramento oficial nessa quinta 02 de novembro, com a cerimônia de entrega dos prêmios no auditório do Parque do Ibirapuera consagrando o filme brasileiro O Cheiro do Ralo, do pernambucano (há 13 anos vivendo em São Paulo) Heitor Dhalia, com Selton Mello. Não vi o filme, dentro da minha proposta de dar preferência a conferir primeiro os filmes de lançamento comercial duvidoso no Brasil.

Observação importante: esqueci de comentar que o prêmio da Mostra é dado para filmes de diretores iniciantes, daí que vários títulos que citei como ótimos filmes vistos não estão entre os 14 finalistas ao prêmio. Ano passado, por exemplo, o vencedor foi Cinema, Aspirinas e Urubus, primeiro filme de Marcelo Gomes, também pernambucano. Pernambuco presente em duas premiações seguidas da Mostra SP, além da pernambucana Hermila Guedes elogiadíssima por toda a imprensa pela sua bela atuação em O Céu de Suely, é motivo de muito orgulho, sem bairrismo, desse web-cinéfilo recifense que você lê.

Entre uns 15 filmes que ainda vou comentar aqui no Blog, está um dos meus preferidos dessa Mostra, o italiano Anche Libero Va Bene (ou Líbero Também é Legal), que concorreu ao prêmio oficial. Dirigido e estrelado pelo ainda jovem Kim Rossi Stuart, 38 anos (de As Chaves de Casa, no Top Ten Kinemail 2006), o filme é um poderoso drama familiar na tradição do melhor cinema italiano, que me levou desavergonhadamente às lágrimas. Com curiosos pontos em comum com o nacional O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (estreando hoje em todo o Barsil), é sobre o rito de passagem da infância para a adolescência de um garotinho que quer jogar futebol. Anche Libero Va Bene certamente será comprado para o Brasil. Não perca. Entre os filmes que ainda irei comentar, acesse o Kinemail Blog diariamente e leia meus comentários sobre Edmond, Síndromes e Um Século, Um Dia de Verão, As Leis de Família, Taxidermia, Antonia, Juventude em Marcha, C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor, O Futuro do Design e outros filmes que tive o prazer de ver na 30ª Mostra Internacional de Cinema e faltou tempo para parar no computador e escrever.

Para quem está em São Paulo, fique atento à terceira semana da Mostra, com uma seleção de reprises dos filmes mais vistos e comentados que ainda estão com as cópias disponíveis para exibição, até a próxima quinta 09, confira programação no site oficial www.mostra.org Segue a lista dos premiados oficias da Mostra 2006:

Prêmio do Júri – Melhor Filme:
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia (Brasil)

Prêmio Especial do Júri:
O Violino, de Francisco Vargas (México)
com menção especial para o ator Don Angel Tavira

Prêmio do Júri - Melhor Ator:
Adel Imam, por O Edifício Yacoubian (Egito)

Prêmio do Júri - Melhor Atriz:
Maria Lundqvist, por Minha Vida sem Minhas Mães (Finlândia)

Prêmio do Júri – Menção Honrosa:
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer (Brasil)

Prêmio Petrobras Cultural
Melhor Filme Brasileiro de Ficção (voto do público):
Antonia, de Tata Amaral
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer
Melhor Documentário Brasileiro(voto do público):
Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr.

Prêmio do Público
Melhor Longa Estrangeiro de Ficção:
Rosso Come Il Cielo, de Cristiano Bortone (Itália)
Melhor Documentário Estrangeiro:
Uma verdade Inconveniente, de Davis Guggenheim (EUA)

Prêmio da Crítica
Categoria Internacional:
Hamaca Paraguaya, de Paz Encina (Paraguai/França/Argentina/Holanda)
Prêmio da Crítica – Categoria Nacional:
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia (Brasil)

terça-feira, outubro 31, 2006

Shortbus: Sexo é política


Sexta-feira, 27 - SHORTBUS

Sexta-feira, meia-noite, sessão lotada para o filme que prometeu e cumpriu ser um dos poucos títulos polêmicos dessa Mostra, Shortbus, o novo filme de John Cameron Mitchell, diretor, roteirista e ator do excelente Hedwig - Rock, Amor e Traição (2000). Shortbus é mais um projeto do que um filme acabado. Depois de Hedwig, Mitchell começou a desenvolver um projeto de um leve e bem humorado filme sobre a sexualidade contemporânea. A idéia era juntar novos e corajosos atores que, princípio básico do filme, não tivessem problemas em fazer sexo real diante das câmeras. De várias experiências recentes, como Romance, The Brown Bunny e Nove Canções, Shortbus é não só o que funciona melhor como também o mais escancaradamente explícito. Os minutos iniciais, que apresentam alguns dos personagens, é uma espécie de teste com a platéia: ereções, penetração, ejaculações e auto-felação explícitos são exibidos sem rodeios e, principalmente, com um humor quase infantil, deixando claro que, mesmo nas cenas de orgias caligulescas, a proposta não é chocar, mas devolver ao sexo pós-AIDS, pós-11 de Setembro e pós-Bush a alegria, o prazer, a isenção de culpa cristã. Não é pouco. E o filme dá o seu recado com graça e honestidade, a partir de seus personagens centrais: um casal hetero em que a mulher não alcança o orgasmo, um casal gay em crise que quer abrir a relação para mais um parceiro, um voyer tímido que brecha pessoas transando com uma luneta e uma solitária garota que faz programas sadomasoquistas.

A proposta leve e lúdica de olhar relacionamentos sexuais variados (mas predominantemente homossexuais) é evidente nos belos planos com uma Estátua da Liberdade e uma maquete de Nova York em papel-machê colorido, que pontuam a trama, conduzindo o espectador para os vários apartamentos onde moram os personagens e para o Shortbus, espécie de bar artístico sexual, onde as pessoas podem apresentar suas músicas, poesias, procurar parceiros sexuais e, se quiser, transar ali mesmo, na frente de todos, num ideal neo-hippie de realizar prazeres sexuais sem barreiras. Bem conduzido no início, o desenvolvimento emocional dos personagens não foge muito dos clichês das comédias românticas tradicionais e o desfecho (uma celebração coletiva, com música e todos os personagens com seus probleminhas sexuais parcialmente desencanados) me pareceu frágil diante da proposta inicial razoavelmente ambiciosa. Se como filme Shortbus está longe da perfeição, como projeto é válido, politicamente necessário, subversivo e vital no cinema moderno. Não há como negar que o momento mais político dessa Mostra provavelmente será a cena de Shortbus em que três rapazes gays (protagonistas principais) transam juntos explicitamente cantando o Hino Nacional dos EUA usando você-imagine-o-que como microfones... Essa forma de patriotismo George W. Bush e a América carola não aprovariam. Amém. Infelizmente, Shortbus ficará limitado ao circuito 'cabeça', GLS, moderninho e será ignorado pelo grande público. Ao menos, foi eleito oficialmente pelo público da Mostra SP como um dos 14 melhores filmes, leia abaixo.

14 filmes concorrem ao prêmio oficial da Mostra SP

A coordenação da 30ª Mostra SP divulgou a lista dos filmes em competição mais bem votados pelo público. Realmente, é filme demais pra ver. Desses 14 escolhidos pela votação do público (não é exatamente o melhor parâmetro de qualidade dos filmes...), eu só vi dois. Ainda verei mais um, com ingresso já agendado. A impressão geral dos jornalistas foi de que os títulos foram muito conservadores, com exceção do ousado Shortbus (que comento a seguir). Particularmente, não entendo como um filme apenas correto como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias está na lista e O Céu de Suely não. Apesar de serem filmes um tanto 'difíceis' para o grande público, os meus preferidos até agora estão todos fora dessa lista: A Última Noite, Flandres, Eu Não Quero Dormir Sozinho, Fora do Jogo, O Labirinto do Fauno, Síndromes e um Século, Honor de Cavalleria, A Scanner Darkly e O Céu de Suely.

O vencedor será conhecido na cerimônia de encerramento da Mostra, nessa quinta 02 de novembro. Segue a lista oficial:

A Batalha de Paris, França, de Alain Tasma
Amu, EUA/Índia, de Shonali Bose
Anche Libero Va Bene, Itália, de Kim Rossi Stuart
Coisas que o Sol Esconde, Israel, de Yuval Shafferman
Go Etxebeste!, Espanha, de Asier Altuna e Telmo Esnal
Minha Vida sem Minhas Mães, Finlândia, de Klaus Härö
Noel–Poeta da Vila, Brasil, de Ricardo van Steen
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Brasil, de Cao Hamburger
O Cheiro do Ralo, Brasil, de Heitor Dhalia
O Edifício Yacoubian, Egito, de Marwan Hamed
O Violino, México, de Francisco Vargas
Os 12 Trabalhos, Brasil, de Ricardo Elias
Qué Tan Lejos, Equador, de Tania Hermida
Shortbus, EUA, de John Cameron Mitchell

Philip K. Dick por Richard Linklater


Sexta-feira, 27 - A SCANNER DARKLY

Depois de realizar o experimento de animação digital sobre filme real em Waking Life (2001), Richard Linklater repete a técnica e vai além com o novo A Scanner Darkly. Depois de ser popularizado em filmes como Blade Runner, Total Recall e Minority Report, o escritor e visionário Philip K. Dick (1928-1982) encontrou em Linklater a sua mais perfeita tradução para as telas de cinema com a adaptação de seu conto de 1973, incrivelmente sintonizado com o mundo estranho em que vivemos atualmente. A Scanner Darkly é ambientado num futuro próximo, em Los Angeles, quando os EUA perderam a guerra contra as drogas. Neste cenário, um policial (Keanu Reeves) é um dos muitos agentes que cederam ao vício de uma popular substância química, que divide a personalidade dos usuários em duas. Não há exatamente uma história para acompanhar. A base da narrativa do filme, o traço mais forte da literatura de Philip K. Dick, são os estados alterados da mente, a linha tênue que separa a realidade das suas distorções, sejam por meio de drogas ou paranóia, esquizofrenia, psicose e outras patologias.

Além do desenho lindo de se ver, a técnica utilizada aqui é design e também conteúdo: com A Scanner Darkly, Linklater deixa bem claro porque escolheu essa técnica. Senti uma certa decepção da platéia jovem, antenada com o mundo virtual, que esperava algo mais 'viajado' na tela. Muito pelo contrário, Linklater tira partido da 'irrealidade' do desenho animado para causar estranhamento com uma narrativa com os dois pés fincados no cotidiano banal. Os personagens são pessoas normais, os objetos dos cenários são perfeitamente familiares com o mundo de hoje e as cenas acontecem de forma natural (já que são filmadas inicialmente com os atores reais). Cenas de sexo, caminhadas na rua, encontros de turmas em apartamentos mundanos regados a cerveja, cigarro e conversa fiada, tudo acontece sem nenhum delírio visual. O efeito é muuuito estranho, ainda por cima com a excelente trilha sonora do Radiohead e Thom Yorke dando o clima. O elenco, com freaks de Hollywood como Woody Harrelson, Winona Ryder e Robert Downey Jr., também não está em A Scanner Darkly por acaso. Como visual explicitamente futurista, temos apenas o disfarce dos policiais informantes, uma esquisita roupa mutante que altera continuamente o visual do sujeito, parecendo uma materialização literal de esquizofrenia, com rostos e roupas em constante mutação, e alguns gadgets já banalizados no mundo atual.

Depois de Dazed and Confused (lançado enfim em DVD no Brasil como Jovens, Loucos e Rebeldes), Antes do Amanhecer, Waking Life, Escola de Rock e Antes do Pôr-do-Sol, Richard Linklater firma-se como o nome mais coerente e inteligente do cinema pop americano. Junto com A Scanner Darkly, ele realizou ainda em 2006 Fast Food Nation (que também deveria estar nessa Mostra, mas ficou de fora de última hora). Ambos já estão comprados para o Brasil, mas parece que A Scanner Darkly sairá direto em DVD. Sorte tive eu de assistí-lo na tela de cinema nessa Mostra SP.